Teologia


Esta é a tradução que fiz de um pequeno texto de Tomás de Aquino acerca da astrologia. Eu gostaria de ter feito uma introdução, mas Aquino está respondendo a alguém, e não descobri quem é seu interlocutor. Se souber, leitor, avise-me. Por enquanto, fica aí o texto assim mesmo.

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DE JUDICIIS ASTRORUM

(SOBRE OS JUÍZOS ASTROLÓGICOS)

 

SANTO TOMÁS DE AQUINO

 

  1. Do tema investigado

Dado que me pediste que te escrevesse sobre a licitude do uso dos conhecimentos sobre os astros, querendo satisfazer teu pedido, procurei escrever-te sobre aquelas coisas que nos são transmitidas pelos doutores sagrados.

 

  1. Do que é lícito

A) Princípio

Em primeiro lugar, é necessário que tu saibas que a força dos corpos celestes produz mudanças nos corpos inferiores. Com efeito, diz Agostinho no livro V Sobre a cidade de Deus: “Pode-se dizer, nem sempre nesciamente, que certos hálitos astrais têm eficácia quanto às diferenças dos corpos[1].

B) Aplicação do princípio

E por isso, se alguém se serve do juízo dos astros para conhecer efeitos corporais, por exemplo, a ocorrência de tempestades ou de tempo bom, a saúde ou doença dos corpos, a abundância ou a esterilidade das colheitas e outras coisas que dependem de causas naturais cognoscíveis, não há nisso pecado, pois todos os homens são obrigados a nisso submeter-se aos astros. O agricultor só pode semear ou colher prudentemente se se assegurar dos movimentos do sol; os marinheiros evitam as navegações na lua cheia (plenilunium) ou durante o eclipse da lua; os médicos, no que tange às doenças, observam os dias críticos [2], que são determinados segundo o curso do sol e da lua.

 

  1. Do que não é lícito

A) Princípio

Mas, é necessário manter completamente isto: que a vontade humana não está sujeita à necessidade dos astros; do contrário, pereceria o livre arbítrio, o qual, se suprimido, não seriam imputadas ao homem nem as boas obras, meritórias, nem as más, culposas. E, por isso, deve ser mantida com toda certeza, por todo cristão, qualquer seja, que aquelas coisas que dependem da vontade do homem, como são todas as obras humanas, não estão submetidas por necessidade aos astros; e, por conseguinte, se diz em Jeremias 10, 2: “Não tenhais medo dos sinais celestes, aos quais temem os pagãos”.

B) Explicação

Porém, o diabo, para arrastar todos ao erro, interfere nas operações dos que lidam com os juízos sobre astros; e por isso diz Agostinho, no livro II, Sobre o Gênesis segundo o sentido literal: “É preciso confessar que, quando pelos astrólogos são ditas coisas verdadeiras, o são devido a certa ocultíssima inspiração que, sem sabê-lo, padecem as mentes humanas; a qual, dado que se faz para enganar aos homens, é uma operação dos espíritos imundos e sedutores, aos que se lhes permite conhecer certas coisas verdadeiras sobre os assuntos temporais”. E por isso, disse Agustinho, no livro II Sobre a doutrina cristã, que este tipo de observações dos astros devem ser referidas a certos pactos celebrados com os demônios. Agora bem, o fato de ter pacto ou sociedade com os demônios, deve ser absolutamente evitado pelos cristãos, como observa o Apóstolo em I Corintios 10, 20: “Não quero que vos associem aos demônios”. E por isso, deve-se ter como certo que é grave pecado recorrer aos juízos astrológicos sobre as coisas que dependem da vontade humana.


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[1] Não consegui traduzir bem isso aí. Se alguém quiser se aventurar, aqui estão as versões em latim e espanhol, respectivamente:

    - Dicit enim Augustinus, V de civitate Dei: non usquequaque absurde dici potest, ad solas corporum differentias afflatus quosdam sidereos pervenire.

    - En efecto, dice Agustín en el libro V Sobre la ciudad de Dios: Puede decirse, no siempre neciamente, que ciertos hálitos astrales llegan a solas las diferencias de los cuerpos.

[2] Dias críticos” são os dias nos quais se dá a ‘crisis’ de uma enfermidade, ou seja, uma mutação considerável na mesma, seja para a cura, seja ao agravamento ou à morte do enfermo. As influências astrológicas sobre as crises das doenças não são consideradas pela medicina atual.

 

Leio textos religiosos de um modo especial, próprio para esse tipo de estudo. Baseio-me muito no que Sócrates ensina no livro “Eutífron” (diálogo escrito por Platão) se referindo à religião grega:

“(…) EUTÍFRON: Eu ousaria dizer, desde já, sem mudança alguma, que é piedoso exatamente aquilo que todos os deuses aprovam, enquanto, ao contrário, é ímpio tudo o que os deuses rejeitam.

SÓCRATES: Mas não será justo que analisemos, Eutífron, nesse caso, se falas com acerto? Ou deveremos nos considerar satisfeitos e não perguntar nada a nós mesmos e aos demais, aceitando aquilo que qualquer um diga? Não convirá analisar o que nos declaram?

EUTÍFRON: Não existem problemas, mesmo que, no que diz respeito a mim, mantenha-me firme no que afirmei.

SÓCRATES: Um momento, estimado amigo, temos um caminho melhor. Raciocina sobre isto: o que é piedoso tem a aprovação dos deuses pelo fato de ser piedoso, ou é piedoso por ter a aprovação dos deuses? (grifo meu)
EUTÍFRON: Não entendo o que pretendes
dizer, Sócrates. (…)”

 

Há muito mais aí… Sócrates detalha mais, dá exemplos analógicos, apurrinha Eutífron até o tempo acabar. Enfim, essa breve citação foi tirada de um texto escrito na juventude de Platão quando provavelmente ele só relatava os diálogos de Sócrates, e que trata da religiosidade e de uma virtude específica, a saber, a piedade. O que eu quis mostrar é que podemos considerar os estudos religiosos por algumas perspectivas:

 

a) A de que questões religiosas não devem ser analisadas, porque são objeto de fé, crença, preferência etc, desprezando racionalizações;

b) A de que questões religiosas devem ser analisadas, porque são objeto de análise objetiva e subjetiva, ignorando autoridade e desprezando crenças infundadas;

c) A de que o correto e louvável é o que dizem os deuses, Jesus, Buda, Krishna, Alah, etc (dependendo da religão);

d) A de que os deuses, Jesus, Buda, Krishna, Alah, etc (dependendo da religão), ensinaram o que ensinaram por ser o correto e louvável;

 

Poderíamos aprofundar essa questão, mas fiquemos por aqui. Sou adepto das perspectivas (b) e (d) e é assim que eu as estudo. Portanto, fico à vontade para amar e seguir em direção à Verdade, sem precisar me filiar à religião alguma, pois a mim, todas são objeto de análise, trazem informações preciosas, mas pela distância temporal de seus fundadores, divergem entre si, mesmo tendo o fundador em comum, e podem ter perdido ou pervertido seus ensinamentos originais. Sem contar a reflexão que pode ser feita acerca das concepções de seus ensinamentos, pois o correto e louvável dado por eles é mesmo o correto e louvável? Este é um doa grandes motivos que me fazem não ser teólogo nem religioso. Estudo e respeito as tradições religiosas, mas sei das suas inúmeras dificuldades intelectuais.