Retórica


Um problema grave do brasileiro ordinário é sua capacidade de se fazer entender num discurso oral ou verbal. Desde menino tenho interesse em desenvolver essas habilidades, e penso ter certa facilidade para falar e escrever, em público ou para o espelho. Tenho a intenção de, neste texto, organizar e explicar algumas dicas de redação que aprendi ao longo das minhas leituras, conversas com estudiosos e experiências. Faria isso só para meu arquivo pessoal, porém alguns amigos interessados, ou, não tão amigos mas igualmente interessados, podem se beneficiar se eu publicar. Então, assim o faço.

Em síntese, a técnica suprema para aprender a redigir consiste em ler obras que expressem a sabedoria universal, entendê-las no conteúdo e imitá-las na forma. Ah, é preciso saber gramática. A seguir, vou tentar analisar o que expressei nesse parágrafo.

Uma técnica que já beneficiou muita gente é a de ler muito. Conforme lê, grava em sua memória pictória a grafia correta e erra incomparavelmente menos do que se não lesse, embora continue errando. Ler mais é sim o primeiro passo, mas não é suficiente.

O segundo passo é a escolha do que ler. Se o sujeito resolve passar a ler mais para futuramente ser um advogado ou magistrado que escreva bem, não poderá se contentar em ler “Pato Donald”, “O Demolidor”, ou o caderno de esportes de um jornal. Terá de ler algo que aproveite mais recursos do idioma. Para escolher, não é aconselhável se distanciar muito do interesse pessoal em detrimento de textos mais complexos. Isso não garante o aprendizado mais rápido. Pelo contrário, atrapalha.

Sendo o sujeito um seguidor da doutrina espírita, penso que o mais indicado seja começar pelos romances psicografados. Mas, eles não bastarão. O melhor mesmo é ler Allan Kardec. Se for um cara interessado em política, é interessante que leia os livros de Ciência Política, ou de Teoria Geral do Estado. Isso não é tão simples. Ler o que interessa pode não elevar uma pessoa da leitura de cardápio.

É preciso objetivar a superação constante. Se se começa por ler romances simples ou best-sellers profundos como são os pires, será imperiosa a necessidade de adiantar-se para as obras mais complexas, sob pena de escrever num estilo viciado: feio, pedante, impreciso, imbecil. É como o guitarrista que ao invés de tentar imitar Van Halen, ou Steve Vai, fica imitando a vida inteirinha os Ramones, ou Greenday. Se precisar compor, vai fazer algo no mesmo nível ou pior do que as porcarias que imita. Com a escrita é a mesma coisa. É preciso sempre avançar.

Há livros universalmente recomendáveis. A maioria eu coletei de listas de indicação dadas pelos filósofos Mário Ferreira dos Santos, Olavo de Carvalho, Mortimer Adler e de alguns professores que tive. Procurarei indicar os que já tive contato para que eu não me afaste da minha experiência. São o “Livro da Sabedoria” o os “Provérbios” de Salomão, “Xogum” de James Clavel, “Musashi” de Eiji Yoshikawa, as obras aforismáticas de Nietzsche como “Gaia Ciência” (todo cuidado é pouco), “Tao Te King” do Lao-Tsé, “Pensamentos” de Pascal, “Apologia de Sócrates” de Platão, “Hamlet” de Shakespeare, “O senhor de Sándara” de Carlos Gonzáles Bernardo Pecotche, etc.

Até agora eu tratei de criatividade, de enriquecimento da mentalidade, de embelezamento e sublimidade no desenvolvimento de um tema. Porém, há a necessidade de fazê-lo atendendo às exigências da língua vernácula. Mais uma vez, insisto no estudo da gramática que por si só, não basta. Deve-se criar um estilo e um modo de usar a língua, no caso a portuguesa, de modo a expressar as mais variadas manisfestações naturais e espirituais, os mais diversos sentimentos e pensamentos com exatidão e precisão. O caso é de ler e imitar os melhores escritores, e dentre eles, dois dos principais são Camões e Machado de Assis.

Parece que complicou, né? Não complicou coisa nenhuma. Vou sintetizar novamente, agora, de outra maneira:

     

  1. Aumentar a quantidade de leituras;

     

  2. Escolher as leituras com base nos critérios:

    a) Interesse;

    b) Superação constante;

    c) Contato com a sabedoria universal;

    d) Beleza e sublimidade na língua vernácula;

     

  3. Procurar imitar o que foi admirado nas leituras;

     

  4. Sempre tirar as dúvidas de gramática, sempre.

 

Aristóteles, em sua obra Topica, diz que não se deve discutir com certo tipo de pessoas. A dialética não funcionaria sem que os pólos da discussão fossem esclarecidos das suas regras. Esses pólos podem ser mestres (professores) e discípulos (alunos), os que tomam parte em disputas e discussões intelectuais, e os que realizam investigações científicas. São imprescindíveis aos que perseguem a verdade regras para o funcionamento de um diálogo que pretende terminar com um número maior de certezas do que havia antes de começar. Diferentemente da lógica, ou analítica, na dialética não se parte de premissas consideradas verdadeiras, mas de premissas prováveis e verossímeis, confrontando-as no intento de descobrir algo novo ou atingir um grau mais alto na escalaridade das certezas. Segundo o estagirita, o debate deve caminhar dentro dos limites da lealdade intelectual.

Na minha experiência pessoal, embora eu ainda não domine todas as regras da dialética, percebi com clareza um dos tipos que devem ser evitados nas discussões. Aconselho que jamais se discuta com os que relativizam a verdade ou dizem que ela não existe. Eles agem e falam como se tivessem o conhecimento da Verdade, não se contendo diante de diferenças, diferenças estas que tanto defendem em seus discursos. Este espetáculo de contradições é um show de horrores para o funcionamento da dialética.