Filosofia


Miguel Reale, jurista que dispensa apresentações, estabelece em seu livro “Lições Preliminares de Direito” as finalidades da disciplina, que considera importantíssima, chamada Introdução ao Estudo do Direito. É esta a ciência propedêutica da Ciência Jurídica, e que, portanto tem a incumbência de transmitir os intrumentos mais básicos para a compreensão do Direito como ciência, como fato social, como dado cultural e como um dos dentre os tantos saberes do homem, muito ligado a outros que o antecipam ou dependem dele. Reale a define assim:

 

(…) a Introdução ao Estudo do Direito é um sistema de conhecimentos recebidos de múltiplas fontes de informação, destinado a oferecer os elementos essenciais ao estudo do Direito, em termos de linguagem e de método, com uma visão preliminar das partes que o compõem e de sua complementaridade, bem como de sua situação na história da cultura.

 

Tenho algumas hipóteses sobre os resultados do êxito neste estudo, coisa que comprovarei assim que eu terminar de estudar os livros que eu escolhi para dominar tal ciência. Tratarei disso adiante.

Vamos às quatro finalidades elencadas por Reale, que tomou-as por principais:

 

  1. Visão panorâmica e unitária do Direito;

  2. Divisão e classificação das disciplinas jurídicas enfatizando sua complementaridade;

  3. Esclarecimento e determinação do vocabulário jurídico, traçando as fronteiras entre este e o vocabulário comum;

  4. Localização do Direito no mundo da cultura, no universo do saber humano;

  5. Compreensão do método da ciência do direito.

 

A compreensão do Direito como ciência é imprescindível, o que torna forçoso o estudo de metodologia das ciências e de ciência como tal. Ensina Reale: “Método é o caminho que deve ser percorrido para a aquisição da verdade, ou, por outras palavras, de um resultado exato e rigorosamente verificado. Sem método não há ciência”; “A ciência é uma verificação de conhecimentos, e um sistema de conhecimentos verificados”, “(…)cada ciência tem sua forma de verificação, que não é apenas a do modelo físico ou matemático”.

 

Depois de atingidos os cinco propósitos, penso que a comprovação o sucesso venha do poder de se adentrar quando se queira no mundo jurídico, este mundo que está pressuposto em cada ação do homem que se relacione com outro homem. Como? Enxergando e pensando sobre cada fenômeno jurídico que se apresente. O pensar sobre isso, imagino, deve levar o sujeito a pensar juridicamente, e a partir daí, poderá adquirir com muito mais facilidade e propriedade a consciência das leis existentes. Entendo que pensar juridicamente seja enxergar os fatos jurídicos, relacionando dados da realidade com as normas jurídicas que os regram. É pensar nos fatos da vida segundo as normas, mas tendo sempre presente a consciência do que seja o Direito num sentido mais amplo. Ora, parece complicado, mas se o amigo leitor ler um livro de Introdução ao Direito entenderá o que digo. Agora chega. Vou estudar mais isso aí, depois volto ao assunto.

Esta é a tradução que fiz de um pequeno texto de Tomás de Aquino acerca da astrologia. Eu gostaria de ter feito uma introdução, mas Aquino está respondendo a alguém, e não descobri quem é seu interlocutor. Se souber, leitor, avise-me. Por enquanto, fica aí o texto assim mesmo.

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DE JUDICIIS ASTRORUM

(SOBRE OS JUÍZOS ASTROLÓGICOS)

 

SANTO TOMÁS DE AQUINO

 

  1. Do tema investigado

Dado que me pediste que te escrevesse sobre a licitude do uso dos conhecimentos sobre os astros, querendo satisfazer teu pedido, procurei escrever-te sobre aquelas coisas que nos são transmitidas pelos doutores sagrados.

 

  1. Do que é lícito

A) Princípio

Em primeiro lugar, é necessário que tu saibas que a força dos corpos celestes produz mudanças nos corpos inferiores. Com efeito, diz Agostinho no livro V Sobre a cidade de Deus: “Pode-se dizer, nem sempre nesciamente, que certos hálitos astrais têm eficácia quanto às diferenças dos corpos[1].

B) Aplicação do princípio

E por isso, se alguém se serve do juízo dos astros para conhecer efeitos corporais, por exemplo, a ocorrência de tempestades ou de tempo bom, a saúde ou doença dos corpos, a abundância ou a esterilidade das colheitas e outras coisas que dependem de causas naturais cognoscíveis, não há nisso pecado, pois todos os homens são obrigados a nisso submeter-se aos astros. O agricultor só pode semear ou colher prudentemente se se assegurar dos movimentos do sol; os marinheiros evitam as navegações na lua cheia (plenilunium) ou durante o eclipse da lua; os médicos, no que tange às doenças, observam os dias críticos [2], que são determinados segundo o curso do sol e da lua.

 

  1. Do que não é lícito

A) Princípio

Mas, é necessário manter completamente isto: que a vontade humana não está sujeita à necessidade dos astros; do contrário, pereceria o livre arbítrio, o qual, se suprimido, não seriam imputadas ao homem nem as boas obras, meritórias, nem as más, culposas. E, por isso, deve ser mantida com toda certeza, por todo cristão, qualquer seja, que aquelas coisas que dependem da vontade do homem, como são todas as obras humanas, não estão submetidas por necessidade aos astros; e, por conseguinte, se diz em Jeremias 10, 2: “Não tenhais medo dos sinais celestes, aos quais temem os pagãos”.

B) Explicação

Porém, o diabo, para arrastar todos ao erro, interfere nas operações dos que lidam com os juízos sobre astros; e por isso diz Agostinho, no livro II, Sobre o Gênesis segundo o sentido literal: “É preciso confessar que, quando pelos astrólogos são ditas coisas verdadeiras, o são devido a certa ocultíssima inspiração que, sem sabê-lo, padecem as mentes humanas; a qual, dado que se faz para enganar aos homens, é uma operação dos espíritos imundos e sedutores, aos que se lhes permite conhecer certas coisas verdadeiras sobre os assuntos temporais”. E por isso, disse Agustinho, no livro II Sobre a doutrina cristã, que este tipo de observações dos astros devem ser referidas a certos pactos celebrados com os demônios. Agora bem, o fato de ter pacto ou sociedade com os demônios, deve ser absolutamente evitado pelos cristãos, como observa o Apóstolo em I Corintios 10, 20: “Não quero que vos associem aos demônios”. E por isso, deve-se ter como certo que é grave pecado recorrer aos juízos astrológicos sobre as coisas que dependem da vontade humana.


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[1] Não consegui traduzir bem isso aí. Se alguém quiser se aventurar, aqui estão as versões em latim e espanhol, respectivamente:

    - Dicit enim Augustinus, V de civitate Dei: non usquequaque absurde dici potest, ad solas corporum differentias afflatus quosdam sidereos pervenire.

    - En efecto, dice Agustín en el libro V Sobre la ciudad de Dios: Puede decirse, no siempre neciamente, que ciertos hálitos astrales llegan a solas las diferencias de los cuerpos.

[2] Dias críticos” são os dias nos quais se dá a ‘crisis’ de uma enfermidade, ou seja, uma mutação considerável na mesma, seja para a cura, seja ao agravamento ou à morte do enfermo. As influências astrológicas sobre as crises das doenças não são consideradas pela medicina atual.

 

O fator mais importante para o desenvolvimento de um povo é sua capacidade de estudo. A pátria (não a máquina estatal) deve incentivar e auxiliar o desenvolvimento dos vocacionados ao estudo com todas as suas possibilidades. Porém, o que vejo e sinto na pele, no Brasil, é uma fabricação de dificuldades ao estudioso.

Os incentivos ao cultivo do saber não existem, mas os desestímulos e a criação de dificuldades são intermináveis. Esse desejo de saber cada vez mais é raro, e quando existe na juventude, deve ser nutrido e aproveitado como uma pedra preciosa dentro de um lodaçal. É a faísca divina que aparece para iluminar a escuridão da vida de pecados. Se o jovem, por natureza já tão inclinado ao erro, não for auxiliado, incentivado e educado pelos mais experientes e pelos que têm recursos, ele cairá e deixará sua vocação. É uma desgraça, mas, factum est, só os imensamente fortes seguem sozinhos em meio aos mais indizíveis obstáculos.

Como já disse, sinto na pele o que é parecer um doudo por tentar compreender a mim mesmo, ao mundo, à vida. Pois isto é o que levanta um povo inteiro em todos os aspectos: o encontro das chaves que abrem as portas ao conhecimento das questões fundamentais. Essas respostas elevam integralmente um homem, depois um conjunto de homens, até chegar à humanidade inteira. E essas forças imensuráveis vêm das mentes de poucos, desses poucos brâmanes que se dedicam a tal elucidação.
Eu não acredito em salvação pela política, eu não acredito em ajuda estatal. Eu acredito em elevação cultural e espiritual feitas no nível individual. E pra isso, a política não pode e não deve atrapalhar.

Posto aqui um texto que admiro há muito tempo, e penso que já deveria ter postado. Faz parte do livro “Convite à Filosofia” do Mário Ferreira dos Santos. É a antecipação para a idéia do livro. Penso que o lugar da Filosofia no panorama das ciências seja mostrado neste escrito de modo magnífico, embora seja um texto introdutório de um livro introdutório.
Lá vai:

Em suas longas e demoradas especulações através dos séculos, tem o homem constantemente perguntado. E as respostas às magnas e mais importantes perguntas, levaram-no a formular outras que se algumas vezes satisfizeram a alguns, não satisfizeram a todos e, por sua vez, provocaram novas perguntas.

Perguntou o homem sobre si mesmo: Quem sou? De onde vim? A Antropologia procura responder-lhe essa pergunta. E a Cosmologia, que estuda a ordem do cosmos, procura responder-lhe sobre a origem deste, de onde veio, qual o primeiro princípio. E vem a Teologia, ciência das coisas divinas, para discutir as razões e motivos a favor ou a desfavor da crença de Deus, o ser criador.

E se Deus existe, por que o Bem e o Mal? Por que não é diferente o mundo? E dessas perguntas, outra disciplina, a Teodicéia (de Theos, Deus, e dikê, justiça, em grego) é a quem cabe responder se há ou não justiça no mundo.

E como sabemos? E vem a Gnosiologia para explicar-nos o conhecimento.

Como se dá o saber culto? E eis a Epistemologia, que estuda o saber das diversas ciências.

E como formou o homem a sua inteligência? E eis a Psicogênese, que lhe ensinará e discutira os problemas referentes à formação do psiquismo humano. E o espírito humano, que é criador, como surgiu? E sobre esse espírito criador surge outra disciplina, a Noogênese, que estuda a gênese do nous, o espírito, e, finalmente a Noologia, a ciência do espírito.

E como funciona esse psiquismo? E eis a Psicologia, que se encarrega de propor respostas às perguntas formuladas aqui.

Mas, significam as coisas algo, dizem mais do que o fenomênico? E eis a Simbólica, que examina as significações das coisas.

E há algo mais oculto, que possamos penetrar mais profundamente? E eis a Mística, que quer responder a essas perguntas.

E as coisas são belas, apresentam em si mesmas algo que lhes dê outro valor. E então é a Estética que estudará este ponto.

E o transcendente? Poderemos alcançar o que está além de nós, além da nossa experiência? E eis a Metafísica Geral, a Ontologia, para responder-lhes a tais perguntas.

E como se dão os fatos no universo? E temos a Ciência, que procura explicar o nexo do acontecer dentro de si mesmo, em sua imanência, no seu mana em, dentro de si, nas coisas experimentáveis.

E como medir os fatos e contá-los? E surge a Matemática.

E como compreender o homem em suas relações com os outros? E a Ética, a Moral, o Direito, a História e a Sociologia propõem-lhes respostas.

E como compreender o nexo dos pensamentos e usá-los da melhor maneira para atingir uma iluminação, que nos mostre mais nitidamente os fatos? E eis a Lógica e a Dialética.

E como explicar tudo isso, dar o nexo a tudo, juntar todo conhecimento humano, e analisá-lo num grande corpo, num grande saber, que seja o saber de tudo, que seja o saber dos saberes, e…

Eis a Filosofia.

 

 

Texto baseado numa idéia que tive ao conversar com uma amiga, a Isabela Yumi, que me apresentou um modelo de educação diferente, utilizado com êxito nos EUA: o “homeschooling”. Para saber mais, há um site deveras elucidativo: http://homeschoolinformation.com/

***

 

 

Filho: Por que eu tenho que ir à escola pai? Aquilo é um saco!!!

 

Pai: Para se divertir, oras! Vá zoar um pouquinho, ver os amigos, conhecer moças bonitas…

 

Filho: Meus colegas contam que os pais deles insistem nessa bobagem de que eles vão lá para aprender…

 

Pai: Filho, veja bem, lá você não vai aprender nadinha. Vão lhe dizer um monte de coisas que não tem valor nenhum, e na maioria das vezes, tudo do pior modo possível.

 

Filho: Mas por que os pais dos meus colegas não falam isso pra eles?

 

Pai: Porque eles não sabem. Por exemplo: se os filhos deles perguntassem estas coisas, eles se embananariam e responderiam impacientemente, simulando certezas que não têm. Certamente, irão dizer que os tipos como eu fazem lavagem cerebral ou algo do gênero! Não tem segredo: eles se educaram nisso aí que você bem conhece e que costumam chamar de “escola”. Eu estudava por fora na faculdade, e só ia até lá quando necessário, para conseguir o diploma sem maiores problemas.

 

Filho: Vou à escola para conseguir o quê, então, além de zoar?

 

Pai: Para conseguir se formar e estar autorizado a ir a uma universidade, para poder atuar numa profissão mais alta do que a de quem não tem diploma. Só vai adquirir a autorização social e legal; não tem nada a ver com aprender.

 

Filho: Por que não deixam as pessoas fazerem vestibular, mesmo sem formação na escola? Ué, se passarem estarão com condição de ir à universidade! Não é?

 

Pai: Não, não é filho. Aliás, deveria ser por aí mesmo, mas o vestibular não avalia direito, então precisam garantir por meio de uma papelada enorme que o sujeito está apto. Apto estará ele a dizer um monte de abobrinhas e a “pensar” tudo errado. Isso é interessante para os que governam a cultura e, por tabela, tudo o mais, pois ensinam o que querem do modo que querem. Aqueles que confiam a educação dos filhos unicamente a isso aí, não sabem nada! São uns irresponsáveis! Aprender mesmo, só em casa, com os professores que a gente escolher.

 

Filho: Mas eu não estou numa das melhores escolas?

 

Pai: Ora, numa das melhores para zoar, ver os amigos..!

 

Filho: Eu não consigo entender o que os meus colegas fazem no tempo em que eu estudo com os professores que o senhor escolheu, e no tempo em que treino artes marciais. Eles, simplesmente jogam tempo no lixo?

 

Pai: Assistem a porcarias na televisão, jogam no computador, lêem gibis, aporrinham os pais, jogam futebol e outros esportes similares, torcem para seus times etc.

 

Filho: Mas isso é chato pra burro..!

 

Pai: É sim. Pena que eles não sabem fazer outra coisa. Não podem nem vislumbrar o alcance de seu horizonte de consciência.

 

Filho: Isso eu já percebi! Por isso, não conseguem entender que a escola é imprestável, que não tem nada a ver com instrução de verdade, embora TODOS a considerem uma chatice! Pensam que sabem ler e escrever, mesmo não entendendo nada do que lêem e ouvem. Escrevem tudo tudo errado. Esquecem que logo vão precisar de muito estudo para o seu sustento físico, mental e espiritual, e que se encontrarão vazios disso no futuro!

 

Pai: É isso. Mas, não só no futuro… Já são vazios!

Desenvolva a idéia de aprender com sujeitos aptos a lhe ensinar algo de valor. E também o auto-didatismo. Aprenda a aprender, e se verá livre até dos professores que conhece aqui em casa. Atente ao fato de você poder se tornar um oásis em meio a um deserto de tanta incompreensão e vulgaridade. Coragem! Talvez, consiga sair daqui algum dia, e ir a um lugar onde valorizem mais o saber. Mas tenha sempre em mente que o ponto de apoio deve estar em você mesmo e em Deus, e não em um lugar ou em uma pessoa.

 

Filho: Que baita “responsa”..!

 

Pai: É isso que nos faz humanos, ora. Senão poderíamos ser como os cães. Não haveria necessidade de tanta parafernália. Seus professores querem lhe ensinar um monte de coisas, pra um dia você trabalhar, ganhar uma graninha, sustentar sua família, e ser tão chato, burro, hedonista, melancólico, falto de sentido como eles. Isso é uma animalidade mais sofisticada, pra não dizer vampiresco, diabólico…

 

Filho: Só falta aos professores e aos alunos irem de quatro às aulas! Hahahah.

Estudar para depois só comer, se distrair, dormir, trepar, trabalhar amargamente… Bah!!! Era melhor nascer como um avestruz! Ou como um esquilo, uma tartaruga, um tigre, um macaco..!

 

Pai: Está aprendendo…

Está passando semanalmente um programa que pretende popularizar a Filosofia. Seu nome? “Ser ou Não-Ser”. É um quadro do Fantástico, aquele programa dominical insuportável da Globo. Pois com esse quadro não poderia ser diferente. Meu temperamento rejeitou-o imediatamente. As imagens, a adaptação para a T.V., os exemplos, as histórias, os temas abordados, as entrevistas… Tudo estava me irritando. As explicações de coisas extremamente simples me pareciam demoradas e “didáticas” demais, e as analogias feitas para que o pensamento abstrato do autor pudesse ser visualizado pareciam-me impróprias. Principalmente a do “mito da caverna” de Platão. Mas, não estou com vontade de falar sobre isso… Quem quiser saber que me pergunte.

Para não ser vítima dos caprichos instintivos e personais, resolvi assistir com paciência no domingo mais recente, para poder julgar com clareza. E não é que eu ouço uma abobrinha imensa!?! Era dia de apresentar Aristóteles, e a “filósofa” responsável escolheu por tema a sua lógica (há tantos outros temas aristotélicos mais interessantes e pertinentes ao objetivo de popularização…). Num dado momento, citou Nietzsche, e ele parecia estar num daqueles dias em que estava a fim de falar mal da lógica. Nisso não me surpreendi, pois esperava dela algo parecido, e conheço algumas das posturas mais exageradas do doudo alemão… Mas depois, ela forçou a barra.
Ensinou o princípio de não-contradição. Disse que esse princípio consiste na impossibilidade de negar o que já foi afirmado, ou de afirmar o que já foi negado. Depois, perguntou para um feirante se ela poderia estar ali e em outro lugar ao mesmo tempo. O feirante disse que não. Afinal, ele é ignorante, mas não passou pelo processo de jumentalização chamado Universidade. Ela disse (não exatamente, porque cito de memória): Como não? Eu posso estar aqui e minha “cabeça” estar em outro lugar.

Impressionante como estava me “matando” o fato d’aquela mulher estar ensinando abobrinhas no maior veículo de comunicação do Brasil.

Ao ensinar o tal princípio de não-contradição, esqueceu de dizê-lo com todas as palavras, o que faço aqui e agora: Uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo e sob o mesmo ponto de vista. Bom, mas isso contraria a fala dela ao feirante, pois ele entendeu por “estar aqui” o fato empiricamente observável da presença físico-corporal, enquanto ela falava de uma presença de atenção, da presença mental. Obviamente, eles estavam falando a partir de pontos de vistas diferentes. Ora, isso é muito fácil de compreender. O difícil é compreender que isso era uma lição de filosofia dada para incontáveis brasileiros.

Sim, dá pra compreender: loucura, burrice ou safadeza. Ela tinha citado Nietzsche com a finalidade de mostrar a superação de Aristóteles, o ingênuo macedônico. Portanto, o princípio que ela ensinou, por ser aristotélico, não vale de nada. Assim, ela pode se contradizer à vontade e afirmar que está ensinando o princípio de não contradição nas telas de Rede Globo, mas na verdade não está. Afinal, o que é a verdade, né? (Terrível!!!)

Entendeu a dificuldade, amigo? Não? Achou essa justificativa coisa de maluco, ou simples “discordância” aos princípios de lógica? Se seguiu a primeira opção, então talvez ainda reste inteligência por aí. Porém, se achou linda a lição de filosofia da senhora “fantástica”, nem precisa continuar. Já está burro ou doudo.

Ela errou a aplicação do princípio. O exemplo foi indevido, assim como todos os outros que apelavam às emoções. Só demonstrou sua tremenda inabilidade lógica. Isso é um serviço de malvadeza para com a mente das pessoas que assistem de boa-fé achando que vão receber algo dos conhecimentos maravilhosos dos filósofos. Já é uma adaptação extremamente forçada, pior ainda conter informações erradas e analogias horríveis. Parece que é filosofia especialmente preparada por e para retardados mentais!

Leio textos religiosos de um modo especial, próprio para esse tipo de estudo. Baseio-me muito no que Sócrates ensina no livro “Eutífron” (diálogo escrito por Platão) se referindo à religião grega:

“(…) EUTÍFRON: Eu ousaria dizer, desde já, sem mudança alguma, que é piedoso exatamente aquilo que todos os deuses aprovam, enquanto, ao contrário, é ímpio tudo o que os deuses rejeitam.

SÓCRATES: Mas não será justo que analisemos, Eutífron, nesse caso, se falas com acerto? Ou deveremos nos considerar satisfeitos e não perguntar nada a nós mesmos e aos demais, aceitando aquilo que qualquer um diga? Não convirá analisar o que nos declaram?

EUTÍFRON: Não existem problemas, mesmo que, no que diz respeito a mim, mantenha-me firme no que afirmei.

SÓCRATES: Um momento, estimado amigo, temos um caminho melhor. Raciocina sobre isto: o que é piedoso tem a aprovação dos deuses pelo fato de ser piedoso, ou é piedoso por ter a aprovação dos deuses? (grifo meu)
EUTÍFRON: Não entendo o que pretendes
dizer, Sócrates. (…)”

 

Há muito mais aí… Sócrates detalha mais, dá exemplos analógicos, apurrinha Eutífron até o tempo acabar. Enfim, essa breve citação foi tirada de um texto escrito na juventude de Platão quando provavelmente ele só relatava os diálogos de Sócrates, e que trata da religiosidade e de uma virtude específica, a saber, a piedade. O que eu quis mostrar é que podemos considerar os estudos religiosos por algumas perspectivas:

 

a) A de que questões religiosas não devem ser analisadas, porque são objeto de fé, crença, preferência etc, desprezando racionalizações;

b) A de que questões religiosas devem ser analisadas, porque são objeto de análise objetiva e subjetiva, ignorando autoridade e desprezando crenças infundadas;

c) A de que o correto e louvável é o que dizem os deuses, Jesus, Buda, Krishna, Alah, etc (dependendo da religão);

d) A de que os deuses, Jesus, Buda, Krishna, Alah, etc (dependendo da religão), ensinaram o que ensinaram por ser o correto e louvável;

 

Poderíamos aprofundar essa questão, mas fiquemos por aqui. Sou adepto das perspectivas (b) e (d) e é assim que eu as estudo. Portanto, fico à vontade para amar e seguir em direção à Verdade, sem precisar me filiar à religião alguma, pois a mim, todas são objeto de análise, trazem informações preciosas, mas pela distância temporal de seus fundadores, divergem entre si, mesmo tendo o fundador em comum, e podem ter perdido ou pervertido seus ensinamentos originais. Sem contar a reflexão que pode ser feita acerca das concepções de seus ensinamentos, pois o correto e louvável dado por eles é mesmo o correto e louvável? Este é um doa grandes motivos que me fazem não ser teólogo nem religioso. Estudo e respeito as tradições religiosas, mas sei das suas inúmeras dificuldades intelectuais.

 

Aristóteles, em sua obra Topica, diz que não se deve discutir com certo tipo de pessoas. A dialética não funcionaria sem que os pólos da discussão fossem esclarecidos das suas regras. Esses pólos podem ser mestres (professores) e discípulos (alunos), os que tomam parte em disputas e discussões intelectuais, e os que realizam investigações científicas. São imprescindíveis aos que perseguem a verdade regras para o funcionamento de um diálogo que pretende terminar com um número maior de certezas do que havia antes de começar. Diferentemente da lógica, ou analítica, na dialética não se parte de premissas consideradas verdadeiras, mas de premissas prováveis e verossímeis, confrontando-as no intento de descobrir algo novo ou atingir um grau mais alto na escalaridade das certezas. Segundo o estagirita, o debate deve caminhar dentro dos limites da lealdade intelectual.

Na minha experiência pessoal, embora eu ainda não domine todas as regras da dialética, percebi com clareza um dos tipos que devem ser evitados nas discussões. Aconselho que jamais se discuta com os que relativizam a verdade ou dizem que ela não existe. Eles agem e falam como se tivessem o conhecimento da Verdade, não se contendo diante de diferenças, diferenças estas que tanto defendem em seus discursos. Este espetáculo de contradições é um show de horrores para o funcionamento da dialética.