Apontamentos


Percebi que alguns dos modelos seguidos pelos meus compatriotas com mais fervor são dois energúmenos. Mick Jagger e Bono Vox são seus nomes. Um velho que fez questão de manter todas as idiotices de seu tempo de juventude e um pacifista militante que pensa entender de geopolítica brasileira só porque comeu com o Sumo Ignaro. Não cantam nada e só falam e fazem asneiras. O segundo, está cotado até para o Nobel da paz. Certamente, os que o indicaram não pensaram nisto.
É de lamentar a idolatria a tipinhos como esses.

Se eu passei a me dedicar mais ao Direito do que às minhas outras ““paixões”” intelectuais e espirituais?
Não. De jeito nenhum! Estudos de Logosofia, Filosofia e Religião continuam em primeiro lugar. Jamais priorizarei algo em detrimento do auto-conhecimento, do conhecimento do Criador e de Sua Suprema Vontade.

Leio textos religiosos de um modo especial, próprio para esse tipo de estudo. Baseio-me muito no que Sócrates ensina no livro “Eutífron” (diálogo escrito por Platão) se referindo à religião grega:

“(…) EUTÍFRON: Eu ousaria dizer, desde já, sem mudança alguma, que é piedoso exatamente aquilo que todos os deuses aprovam, enquanto, ao contrário, é ímpio tudo o que os deuses rejeitam.

SÓCRATES: Mas não será justo que analisemos, Eutífron, nesse caso, se falas com acerto? Ou deveremos nos considerar satisfeitos e não perguntar nada a nós mesmos e aos demais, aceitando aquilo que qualquer um diga? Não convirá analisar o que nos declaram?

EUTÍFRON: Não existem problemas, mesmo que, no que diz respeito a mim, mantenha-me firme no que afirmei.

SÓCRATES: Um momento, estimado amigo, temos um caminho melhor. Raciocina sobre isto: o que é piedoso tem a aprovação dos deuses pelo fato de ser piedoso, ou é piedoso por ter a aprovação dos deuses? (grifo meu)
EUTÍFRON: Não entendo o que pretendes
dizer, Sócrates. (…)”

 

Há muito mais aí… Sócrates detalha mais, dá exemplos analógicos, apurrinha Eutífron até o tempo acabar. Enfim, essa breve citação foi tirada de um texto escrito na juventude de Platão quando provavelmente ele só relatava os diálogos de Sócrates, e que trata da religiosidade e de uma virtude específica, a saber, a piedade. O que eu quis mostrar é que podemos considerar os estudos religiosos por algumas perspectivas:

 

a) A de que questões religiosas não devem ser analisadas, porque são objeto de fé, crença, preferência etc, desprezando racionalizações;

b) A de que questões religiosas devem ser analisadas, porque são objeto de análise objetiva e subjetiva, ignorando autoridade e desprezando crenças infundadas;

c) A de que o correto e louvável é o que dizem os deuses, Jesus, Buda, Krishna, Alah, etc (dependendo da religão);

d) A de que os deuses, Jesus, Buda, Krishna, Alah, etc (dependendo da religão), ensinaram o que ensinaram por ser o correto e louvável;

 

Poderíamos aprofundar essa questão, mas fiquemos por aqui. Sou adepto das perspectivas (b) e (d) e é assim que eu as estudo. Portanto, fico à vontade para amar e seguir em direção à Verdade, sem precisar me filiar à religião alguma, pois a mim, todas são objeto de análise, trazem informações preciosas, mas pela distância temporal de seus fundadores, divergem entre si, mesmo tendo o fundador em comum, e podem ter perdido ou pervertido seus ensinamentos originais. Sem contar a reflexão que pode ser feita acerca das concepções de seus ensinamentos, pois o correto e louvável dado por eles é mesmo o correto e louvável? Este é um doa grandes motivos que me fazem não ser teólogo nem religioso. Estudo e respeito as tradições religiosas, mas sei das suas inúmeras dificuldades intelectuais.

Doente em casa, depois de descansar ouvindo a 7ª de Beethoven, tive a infeliz idéia de assistir a televisão. Tinha acabado o Chaves, que eu queria ver, e começado o Programa do Ratinho.

Estou, há algumas semanas, bastante preocupado com a questão do desarmamento. Mandei até e-mails aos Deputados Federais. Ao prestar atenção na TV, situação raríssima, deparo-me com o imbecil do Ratinho dizendo que os que querem permitir o comércio de armas deviam enfiá-las… Pois é Ratinho, fizeste doer minha úlcera, mas encontrei um texto ótimo, do engenheiro Edward Wolff, que me sossegou. Tudo que eu queria escrever sobre o “pequeno roedor” está lá. Transcrevo o trecho que mais interessa:

No seu programa de 23 de junho [de 2003], o apresentador de TV e ex-deputado federal Carlos Massa, o Ratinho, deu um nó nos neurônios de quem o assistia. Usando de sua tradicional linguagem verborrágica, Ratinho prometeu perseguir e matar qualquer traficante que porventura se aproximasse de seus filhos. A polícia e a Justiça, segundo o apresentador, não seriam instrumentos suficientes para resolver a questão. Admitindo a impotência desses órgãos, Ratinho afirmou: “Comigo, bandido vai direto ver o capeta! Não tem apelação nem recurso!”

Logo em seguida, em outra reportagem, Ratinho confundiu seu público ao opinar sobre desarmamento civil. Todos esperavam, diante da valentia demonstrada anteriormente, que Ratinho fosse contra. Nada disso: Ratinho é a favor. Isso mesmo: “ou todo mundo anda armado ou ninguém anda armado”. Não dá para entender. Às 22h, Ratinho bate no peito e promete perseguir e matar bandidos. Às 22h05, Ratinho defende o desarmamento civil. Ora, se é óbvio que os bandidos não serão afetados pela lei do desarmamento (afinal, é por isso que bandidos são chamados de ‘foras-da-lei’), como é que o sr. Ratinho pretende matá-los? Por acaso o desarmamento civil não se aplica ao sr. Ratinho? Ou será o apresentador mais um daqueles que se dizem a favor do desarmamento mas, “enquanto a lei não pega”, se enche de seguranças armados até os dentes?

 

Sobre o desarmamento, reflita leitor: Se o índice de assassinatos diminui com o desarmamento, é porque as armas que foram entregues eram usadas. Os que usam as armas são criminosos, a não ser em casos últimos, os de legítima defesa. Ao entregar armas e ganhar dinheiro em troca, os criminosos não estão somente ganhando uma graninha, mas também sendo absolvidos, perdoados por suas matanças, já que o Governo vai se abster de enjaular os “bonzinhos” que pararam de matar porque entregaram suas armas. Não leitor, isso não está combinado previamente em Estatuto nenhum, é apenas uma constatação. Não apertarão as investigações, nem implantarão pena de morte para diminuir os crimes, mas desarmarão, portanto…

O tipo de último caso a que me referi, poderia ter salvado inúmeros sujeitos sem crime algum, como o caso do bosta do Champinha, muleque de 14 anos que arruinou com a vida de um jovem casal e de suas respectivas famílias. O casal, imprudente e ingênuo, fugiu para namorar num local vazio, no interior, onde ficariam sozinhos. Se o varão tivesse uma arma, a espingarda velha de Champinha poderia não tê-lo matado, e sua namorada não seria estuprada por mais três malditos, além do já citado. Teríamos um adolescente vagabundo a menos, e talvez menos velhos safados também, e um casal jovem mais prudente e menos ingênuo. A legítima defesa é um direito que ainda temos, e precisamos preservá-lo. Os que são criminosos, por definição, não se preocuparão em respeitar as leis de desarmamento. Os homens de bem sim, e ficarão desprotegidos nesses casos em que a legítima defesa é o único modo de defesa, a garantia de que o atacado ilicitamente terá alguma chance de se defender, defender sua dama e sua família.

 

 

Aristóteles, em sua obra Topica, diz que não se deve discutir com certo tipo de pessoas. A dialética não funcionaria sem que os pólos da discussão fossem esclarecidos das suas regras. Esses pólos podem ser mestres (professores) e discípulos (alunos), os que tomam parte em disputas e discussões intelectuais, e os que realizam investigações científicas. São imprescindíveis aos que perseguem a verdade regras para o funcionamento de um diálogo que pretende terminar com um número maior de certezas do que havia antes de começar. Diferentemente da lógica, ou analítica, na dialética não se parte de premissas consideradas verdadeiras, mas de premissas prováveis e verossímeis, confrontando-as no intento de descobrir algo novo ou atingir um grau mais alto na escalaridade das certezas. Segundo o estagirita, o debate deve caminhar dentro dos limites da lealdade intelectual.

Na minha experiência pessoal, embora eu ainda não domine todas as regras da dialética, percebi com clareza um dos tipos que devem ser evitados nas discussões. Aconselho que jamais se discuta com os que relativizam a verdade ou dizem que ela não existe. Eles agem e falam como se tivessem o conhecimento da Verdade, não se contendo diante de diferenças, diferenças estas que tanto defendem em seus discursos. Este espetáculo de contradições é um show de horrores para o funcionamento da dialética.