Não tenho por objetivo esquadrinhar aqui todos os fundamentos e toda a estratégia do movimento estudantil. A pretensão única e exclusiva é a de narrar um fato, ocorrido no Estado de São Paulo, como ensaio aos primeiros esboços de uma compreensão cada vez mais precisa do que se faz no meio universitário com relação à política nacional. Sim, com relação à política nacional e até internacional! Seria muito bom se os colegas de outras regiões, como os do site Blogs Coligados, fizessem coisas semelhantes para que possamos nos informar com mais correção do que está realmente havendo no meio cultural mais ligado à política. Eis o resultado dos meus esforços neste sentido:

 

 

Dos primeiros movimentos num Congresso universitário que tinha por fim a formação do maior DCE local da história

 

 

O movimento estudantil deveria se chamar movimento político-universitário. Não tem a ver com estudo, tem só a ver com pessoas matriculadas em cursos do chamado Ensino Superior, e não passa de um meio de ação dos partidos políticos no meio universitário. Ou seja, é um movimento político, parte de uma estratégia de agremiação nacional, que não tem por finalidade NADA que se ligue ao estudo, nem superficial, nem profundo de quaisquer questões ligadas ou não aos cursos freqüentados. São palanques estabelecidos com fins meramente partidários, estratégicos, e ao mesmo tempo auto-promocionais, já que os gerenciadores da baderna são os próximos a galgarem cargos políticos, depois de muito gritarem em público suas mesquinharias.

O que vi, em outubro de 2006, no prédio de uma importante Universidade Católica, foi um movimento da esquerda política. Havia filiados ao PSOL, ao PCdoB, ao PT, e talvez a mais partidos comunistas. Se a ação da esquerda política, ao menos nacional, se dá do mesmo modo, pude encontrar algumas constantes em suas atuações, que foram suficientes para que qualquer brasileiro sinta repugnância por esse tipo de movimento. A orquestração disso, no escopo universitário, tem grande parte da atuação da UNE.

Ao usufruírem de liberdade quase irrestrita, gozando do uso de várias salas, de um salão-nobre e de almoço grátis, os responsáveis por tudo enfatizaram o quão tormentosos e difíceis são seus dias de explorados dentro do cruel ambiente universitário. Mais duros ainda quando em estabelecimentos privados e católicos. Exatamente a situação.

Com um discurso de quem não quer tomar partido em relação às próximas eleições presidenciais, o sujeito que falou em primeiro lugar deu exemplo da mais pura neutralidade, aproveitando o ensejo para dizer tudo o que pôde, mentindo descaradamente quando preciso, contra Alckmin, FHC, PFL e PSDB. E esta foi a tônica! Neutramente todos os organizadores tinham, colados em seus peitos ou mochilas, adesivos lulistas.

A reunião era um Congresso, donde apresentar-se-iam as chapas que concorreriam, em sufrágio, à composição do novo Diretório Central dos Estudantes. O Grande palanque estudantil! Falaram do método, que consistia numa divisão em pequenos grupos de discussão, de onde sairiam as propostas, mui democraticamente.

A seguir explicarei os métodos usados para lidarem com as chapas. E como, já não mais somente como observador, agi diante de tudo.

 

Da queda das máscaras

 

Não fosse eu uma vítima constante da minha própria falta de organização, estaria certo de que algum comunista roubou os papéis em que fiz anotações do dia do Congresso e análises posteriores. Sim, eles sumiram e não acho de jeito nenhum. Contarei os episódios relacionados ao método de formação das chapas e ao desmascaramento de toda a operação mentirosa, mafiosa, antidemocrática, cheia de bondade fingida, esquerdista de alcance continental (ufa!) de memória.O movimento político-universitário prosseguiu em sua ação, e reitero, seguindo os ditames de partidos políticos como provarei na seqüência. Sua tática foi a de juntar alguns grupos de discussão, se não me engano cinco, com mediadores que serviriam para que surgissem propostas bem definidas, cuidando muito bem para que a coisa não fugisse dos objetivos previamente estabelecidos nas mesas de reunião de seus respectivos partidos, e dos objetivos explícitos, que todos conheciam.

Fiquei num grupo de discussão mediado por um pessoal já conhecido por mim. Apresentei-me como um aluno comum, mas fizeram questão de enfatizar que eu sou velho de guerra. Depois de um tempo de bafafá indiscriminado, todo mundo parecia estar se perdendo ali. Foi pedido que os participantes dessem sugestões, propostas de ação. Pedi a palavra. Comecei por dizer que estava pouco à vontade quanto ao fato de estarmos entrando num acordo, ou apenas caindo na aceitação de algo por não se ter pensado mais no assunto. Disse, respondendo a provocações anteriores, que por burrice minha mesmo (houve protestos explícitos contrários a essa posição, o que me fez ganhar em força persuasiva) não tinha conseguido realizar projetos ligados à questão do movimento estudantil, aqueles que eu propunha em reuniões, como um Grupo de Estudos de Política. Não obstante, sem ajuda de DCE nem de CA, e não falando em nome de ninguém que não no meu mesmo, fiz acontecer o que havia planejado. Fundei um Grupo de Estudos e um periódico cultural. Prossegui, até abusando do tempo, dizendo que era bom que ficassem claros os conceitos que estavam sendo colocados à mesa, pois poderiam não ser os únicos e nem os melhores para a ação dos estudantes, e que isto não seria descoberto sem avaliação racional serena. Perguntei também a que este movimento todo estava ligado, se isso tudo não era uma tática, parte de uma estratégia maior, o que deveria ficar claro.

Parece que pus em movimento uma série de manifestações e pensamentos atípicos, visto que quase toda, ou toda, a seqüência foi feita com referência ao meu discurso. O pessoal “sacou que não tava sacando”. Alguns, dentre eles dois mais enfáticos, não aceitaram mais tomar posições sem prévia avaliação. Houve burburinho, até que, talvez por quererem de mim uma posição mais prática, retornaram a palavra a mim, pedindo que eu desse propostas. Disse que só tinha a proposta de fundar grupos maiores para estudar as situações apontadas como críticas pelo movimento. Até que um PSOLista, que simpatizou comigo, decidiu explicar melhor as coisas, perguntando se tudo estava claro pra mim e se podia ajudar com maiores esclarecimentos. Claro que ele poderia ajudar! Aproveitei o ensejo e desenvolvi mais uma das questões passadas despercebidas da primeira vez que falei. De onde vêm estas idéias? A quem o DCE obedece? Isso tudo é parte de uma estratégia política? As pessoas aqui são ligadas a partidos políticos? Se sim, quais?

Senti alguns constrangimentos, mas falei com tanta clareza e simplicidade que começaram por se declarar. Tinham filiados ao PCdoB, ao PSOL e ao PT, majoritariamente. Fora do grupo havia um sujeito, uma figura, que me deixou chateado por não ter descoberto a qual partido era filiado. Tinha a cara arquetípica de sindicalista, cara toda barbuda, com expressão de reclamão… Poderia ser do PCO.

As manifestações no grupo passaram a ser deveras unusuais. Muitos não estavam mais caindo na conversinha, às vezes, na berralheira, dos comunistas. Antes de terminar, uma das mediadoras soltou o verbo, muito exaltada, dizendo que “todos os grupos vão chegar lá com propostas, discutindo tudo. Como é possível que este, o melhor grupo, sairia dali com todo mundo dizendo não saber mais nada”? Pois é querida, esse é o efeito do método socrático! Se isso parece reacionário demais, pode chamar de método do Lula: Não sei de nada, afinal, como vou saber o que é o DCE, o que se faz nesse órgão, o que a reitoria faz ou deixa de fazer, como usam nosso dinheiro, e qual o melhor modo de agir enquanto estudante, se não dá pra saber nem o que ocorre na nossa cozinha quando estamos na sala? Se com uma gigante rede de informação, não é possível saber de um número imensurável de dinheiro desviado pra lá e pra cá, por que, sozinho, devo saber dos secretos desígnios da reitoria querendo me engolir, e do meu papel como estudante? Não sei, oras. Ah não, leitor, isso eu não falei lá; perigoso…

Depois disso houve o almoço. A maior dificuldade aí foi agüentar os indizíveis transtornos estomacais, e a vontade de rir com os amigos de tanta bobagem escutada. Sobrevivi. Comi e ri. Quando voltei para a parte final, momento em que seriam inscritas as chapas para a votação no final, passei mal de novo, acompanhado na dor por amigos. Decidimos ir embora.

Foi uma grande experiência. Pude comprovar uma série de hipóteses e pude testar minhas forças. Se tivesse cinco como eu ali, não haveria DCE constituído, mas sim, um aglomerado de grupos dedicados a aprofundamentos de estudos os mais variados, inclusive o que se relaciona com o panorama político nacional e internacional.