Desde menino eu sempre tive fixação pela questão da certeza. Angustiavam-me as historinhas contadas pela minha avó e pela educação religiosa dada no colégio em que estudei. Acreditava naquilo porque pessoas muito confiáveis, que eu tinha em alta conta, estavam me narrando, e por nenhum outro motivo. Ficava sempre uma pontinha de dúvida, que eu não conseguia expressar de forma nenhuma, mas que aumentou no decorrer do tempo e foi me afastando do grosso da crença generalizada pouco a pouco.Expressou-me a incerteza na minha vontade de conhecer outras culturas, outras religiões, e outras formas de relação com o divino. Nisso fui ajudado por uma infância incomum, não particularmente considerada, mas considerada enquanto dentro de uma geração educada num pluriculturalismo desorientador. Recebi influências as mais diversas: Desde documentários simples que eu mal entendia sobre outras formas de religiosidade, às cantorias dos Hare Krishna que moravam ao lado da minha casa, até o Jaspion, com seus incontáveis derivados, e as artes marciais. Tudo isso me fez por em dúvida TODO o sentido da existência que meus pais, avós e professores tentaram me inculcar. Sem total consciência do processo, por parte dos agentes, a minha geração recebeu todas as influências possíveis para o desvínculo com as crenças tradicionais, e no entanto, não forneceu orientação melhor. Mergulhou um grande número de pessoas num oceano de informações muito dificilmente identificadas segundo seus respectivos valores, o que tornou impossível toda e qualquer avaliação racional. Minha adolescência foi o exemplo disso. Um jovenzinho petulante, vendo um mundo incerto sobre tudo, crendo em coisas inacreditáveis, inventou sozinho um sistema explicativo da realidade e podia se bastar em termos de orientação espiritual. Obviamente com aquela duvidazinha por trás. Passei por seitas estranhas, e visitei uma dita fazenda ufológica. Experimentei alguns alteradores de consciência e treinei para conseguir produzir efeitos paranormais. A queda disso doeu tanto que sinto a dor até agora, embora já tenha levantado.
Com 17 anos, já no limiar da fase dolorosa para a fase mais dolorosa ainda, escrevia no meu cadernos textos auto-biográficos na linha dos de Descartes. Queria ter certeza de algo e me perguntava se era possível estar certo de alguma coisa. Se eu estou perguntando e estou certo de que pergunto eu tenho alguma certeza. Juro que pensei esta baboseira. Estava influenciadíssimo pela leitura de O Discurso do Método e pus em dúvida até as coisas indubitáveis. Mas este é o estado de quem está afogado em burrice e desorientação: Apelar a um francês debilóide. Bem, como eu ia dizendo, escrevi estas coisas num caderno que ainda tenho. Posso até mostrar aos amigos leitores, sei lá como. Posso escanear! Cheguei a conclusões altas demais e senti-me de novo sem certeza alguma do que pensava e escrevia. Cheguei até a “provar” um tipo de “Grande Ninho do Ser”, algo como a partir dum crescendo de certeza em certeza, chegar a concepção de corpo, mente, alma e espírito. Mostrei a algumas pessoas muito próximas e elas gostaram. Pena que nem eu acreditava naquilo.
Há pouco tempo consegui firmar certas posições. Consegui, finalmente, algum apoio aqui e acolá para conseguir estar certo de que é possível estar certo de alguma coisa. Não sei se tudo isso aí tem a ver com a característica astrológica do meu Sol que se encontrava na Casa IX quando do meu nascimento. Sei apenas que estes fatos interiores que narrei ocorreram de verdade. Estou narrando experiências, com o maior distanciamento possível de qualquer tipo de metafísica, para poder estar próximo à certeza da evidência experimental. Está aí um aspecto que me trouxe maior confiança cognitiva: a observação empírica (no sentido amplo que Ken Wilber dá a este termo). Não estou certo de que seja só isso. Mas estou certo de que a confiança que deposito na minha inteligência aumentou deveras.
Um dos textos mais esclarecedores sobre o assunto é o Inteligência e Verdade do prof. Olavo de Carvalho. Não foi só pelo contato com este escrito que consegui maior fé na minha capacidade cognitiva, mas ele ajudou. Um dos fundamentos do fato psicológico de estar certo de que se está certo de que se tem certeza (sim, é preciso saber que sabe que sabe que sabe) é a admissão de certas evidências, de certos dados de experiência óbvios que tinha de admitir forçosamente, sob pena de contrariar os mais simples dados da realidade. Estes dados, por sua vez, implicavam num monte de outras coisas, que ou eu admitia, ou negava a simples apreensão primitiva. Um exemplo simples é o da certeza de que estou escrevendo para publicar num blog, por meio de um computador, pressionando meu dedo sobre teclas, que contêm signos, que são as letras do alfabeto que aprendi quando era muito pequeno. Aceitando os dados desta pequena frase, eu terei de levar em consideração que o blog é um meio eletrônico de publicação de textos feito com apoio na rede mundial de ligação de computadores correntemente chamada de internet, e também que o computador é um aparelho que eu não sei como funciona, mas que alguém certamente sabe, e também que o teclado foi feito especialmente com um conjunto de signos admitidos e compreendidos por uma imensa comunidade de pessoas etc etc etc. Tudo isso é certo. Não tem como duvidar. Se eu duvidar, não há mais blogs, nem internet, nem computadores, nem teclas, e, vai saber… nem dedos. Do nada eu comecei a acumular um volume tal de certezas que não dava mais pra parar quieto na madrugada, olhar para o nada e perguntar com cara de francês: Será que eu existo mesmo?
De cada experiência é possível extrair alguma certeza ou, ao menos, uma elevação no grau da certeza que se tem. Com isso, pude reavaliar cada uma das experiências importantes que recordo desde o meu nascimento, examinando o impacto na minha psique, extraindo com isso a certeza de que minha própria história não tem a clareza de um conjunto bonitinho de causas e efeitos que se sucedem em elos perfeitamente reconhecíveis. Mas a certeza da obscuridade quanto ao meu próprio desenvolvimento, quanto à minha própria biografia chocou-me e levou-me a questionar os fatores caóticos, vamos dizer assim, existentes por acaso, que originaram certos comportamentos de minha parte, diria até que a maioria. Pouquíssimas vezes eu estava obedecendo a um plano próprio, desenvolvido por mim para a minha própria vida. Parecia que só causas de impossível identificação agiam sobre mim. E eis que daí surgem fulgurantes as perguntas fundamentais. Isso é longa história, mas imagino que este seja o marco da espiritualidade genuína. A brecha que qualquer alma precisa para a luz entrar. Se não tenho controle nenhum nenhum nenhum sobre meus atos, e se minha “consciência” é uma semi-consciência indigna de um gorila, que raio de ser eu sou, visto que posso, no entanto, formular esta questão? Devo entregar-me às forças esmagadoras da natureza? Dos deuses? Do Deus Único (de qual monoteísmo? sei lá!)? Do acaso? Do quê? Que influências estarrecedoras são estas que aparecem na minha mente imediatamente como explicações da realidade, sem que eu tenha comprovado absolutamente nada delas? São mesmo representações mentais do real, ou são crendices imbecis? Por que eu não sei o porquê d’eu existir? Por que eu existo? Faz sentido eu ter aparecido como que por encanto, assim como parecem ser meus atos? Ou fui criado, assim como parecem ser outros de meus atos, muito muito menos numerosos? Se fui criado, para que o fui? E Quem me criou? Quem é o Criador?
Quem souber tudo isso aí me conta já! Não estou certo de ter as respostas fundamentais, mas apenas hipóteses de maior ou menor probabilidade para efeitos de ação prática diária. Não posso esquivar-me de viver porque não sei por que vivo. Já sei um monte de coisas, e sei que as sei. Digo mais. Sei que sei que sei tudo isso aí. Sei que escrevo tudo isso tentando ir do processo da minha experiência real, ao da minha imaginação, ao da elaboração de signos verbais adequados e, finalmente, à escrita mesma, objetivando que tudo isso vá produzir efeitos reais nas psiques dos leitores e posteriormente na vida física, mesmo que haja rejeição a toda minha exposição verbal. Mesmo assim, não consigo estar certo do que é o principal em minha vida, e meus contemporâneos, quiçá a humanidade quase inteira já morta, não sabem nada nada nada dessas coisas. São uns acreditadores de ladainhas inverossímeis. Não pararei de trabalhar para minha própria elucidação. Prometo que a divulgarei se chegar a conquistá-la.
Agradeço aos leitores a paciência empregada na leitura, virtude esta que, possivelmente, ajudei a exercitar.
(Escrevi tudo de uma vez. Depois corrijirei tudo. São 8h00 am e estou morrendo de sono.)
(Já fiz algumas correções.)
Abraços!
Janeiro 7, 2007 at 8:58 pm
Eu ia dizer que o caminho da experiência individual (prática) para se chegar às certezas é, de fato, o que tem trazido maior êxito, mas logo depois li o trecho em que você diz isso. hehehehe
Bem, gostei bastante. Achei um bom começo de blog, pois traz com clareza as suas pretensões e o seu ponto de partida para a formulação dos próximos textos. Parabéns!
E mantenha distância dos franceses!
Janeiro 7, 2007 at 10:45 pm
Através do caminho da crença numa dada Revelação (ou pretensa Revelação), é possível ter certeza de certas coisas, mas para outras a dúvida sempre persistirá. Por exemplo, tenho a certeza de que Jesus é o Caminho, a Verdade e a Vida, mas:
1) Não tenho plena certeza do que isso especificamente significa;
2) Não tenho plena certeza dos relatos evangélicos.
Creio na boa fé dos evangelistas, assim como creio também na boa fé dos copistas e tradutores, e por outro lado creio na humanidade de todos, que os leva a errar e se confundir.
Pelo menos, para mim a dúvida é vitamínica
Janeiro 8, 2007 at 5:58 pm
Existe um livro chamado “Uma Breve introdução à Filosofia”, de Thomas Nagel (esse livro faz parte da mesma coleção da Martins Fontes que tem o “Pequeno Tratado das Grandes Virtudes”). Há três capítulos que têm relação com as questões (angústias?) que você apresentou:
- “Como sabemos alguma coisa?”
- “Outras mentes”
- “O problema mente-corpo”
Bom, o livro é, em essência, uma introdução. Por isso não se trata de um primor de profundidade. Mas o autor levanta, de uma forma muito clara e simples, questões semelhantes às que você levantou. Por exemplo:
- “Existe uma possibilidade significativa de que o interior da sua mente seja a única coisa que existe?”
- “O que você realmente sabe sobre a vida consciente neste mundo, além do fato de que você tem uma mente consciente?”
etc.
Estas coisas, é claro, são muito cartesianas (“de Descartes”).
Junho 30, 2007 at 9:51 pm
Vou ser o mais pontual e polemico possível para q isso c torne uma discussão.
Em virtude do acima exposto:
1. Não existe livre arbitreo, apenas causalidade.
2. Se existe um Deus ele é sádico, um pai ausente com senso de humor negro.
3. A consciência é o mais pesado dos fardos q um ser humano possa carregar, se é q depois da consciência um ser ainda possa ser chamado de humano.
4. Há quem goste de acreditar q é o pensamento elaborado q nos torna mais humanos, acho exatamente o contrario.
5. Se existe um plano divino, lógica da existência, entalpia, ordem social ou tendência natural das coisas tais aspectos da psique são brincadeira de mau gosto, um vírus do pensamento, um obstáculo para a vida.
Estou ansioso para ser contrariado….
Julho 3, 2007 at 5:23 am
Luis,
1. Não permito essa interpretação do meu texto. Pode-se entender assim: Não se exerce comumente, ou a generalidade das pessoas não costuma exercer, o poder do livre-arbítrio, do livre-exame, da liberdade de pensar. Mas não decorre do que expus que isso tudo aí não exista. Se decorre, peço demonstração, por favor.
2. Não concordo, e acho uma necedade a referência a Deus nesses termos. A nossa incapacidade não pode julgar toda a criação, ou a universalidade das coisas, ou a ordem universal, ou Deus, nos termos que preferir. Pode se explicar melhor? Para a realidade, o fato de doer para a gente essa vida aparentemente sem sentido e sem manual de instruções não tem importância nenhuma. E como disse, a falta de sentido é apenas aparente, a meu ver. Sejamos realistas e ponhamo-nos no nosso lugarzinho minúsculo dentro do cosmos. Quem sabe desvendar o mistério do sentido não seja já um sentido prévio à descoberta de mais coisas?
3. De jeito nenhum, nenhum, nenhum. Vejo fardo somente na inconsciência, e não há nada de humano nela, já que aí se perde a diferença específica do gênero humano às demais espécies de vida. Viver como um animal sofisticado não é ser humano de jeito nenhum.
4. O que é pensamento elaborado? Dependendo do que seja, acho uma macaquice ou uma papagaiada. Eu não me referi a esse negócio de pensamento elaborado em meu texto.
5. Não tenho essa condição de julgar a realidade, mesmo, contrariamente a você, eu entendendo que há uma harmonia perfeita nela. Não acha que é maluquice julgar “um plano divino, lógica da existência, entalpia, ordem social ou tendência natural das coisas”? Que méritos invoca?
Bom, se estava ansioso, aí está o que pediu. Não consegui não contrariá-lo.
Abraço.
Julho 3, 2007 at 9:30 pm
Era tudo q eu precisava…
Aguarde vem ai O MANIFESTO NEODETERMINISTA!