Janeiro 2007


 

 

Desde que fui assaltado pela primeira vez por dois moleques que roubaram meus chinelos, não perdi a vontade de sumir com a criminalidade. Já fui assaltado muitas vezes mais, por homens armados numa moto, com revólver na cabeça, com pistola na cintura do inimigo, por oito ou nove maltrapilhos armados com facas etc. Não acredito que com outros jovens de idade próxima a minha tenha sido muito diferente.

Levando em conta que eu não fui um mero azarado, mas que essas são características do Brasil atual, por que a população não contesta isso com maior objetividade, saindo da clave pobre/rico? O que está havendo? Isso é sintoma de quê? É uma situação normal e eu preciso me acostumar com ela ou não é normal? Tenho que combater a criminalidade? Se não, devo aceitá-la, por ela vir da pobreza que se não for eliminada, continuará sendo fonte de violência? Se sim de que modo? É comum atribuírem nossos problemas ao policiamento inadequado. Outros, mais comuns ainda, à fome, à pobreza, à injustiça social… Afinal, o que há?

Acredito que eu não conseguirei tratar com certeza do assunto do policiamento porque não tenho informações suficientes. Não tenho como dizer que os policiais são incompetentes, vendidos, cruéis, tiranos, folgados (e outras mil coisas mais que são propagadas o tempo todo), porque não tenho informações sobre o assunto. Só o “Gabriel O Pensador” é que as têm. Se tivesse que apostar, no entanto, diria que isso aí é falso, e que os policiais têm de ser ajudados pela população e por seus superiores, com mais orientação, condição de trabalho e apoio moral.

 

Os policiais têm de ser defendidos pela população. Sim, foi isso mesmo que eu disse. É um paradoxo aparente. Precisamos defendê-los no campo cultural, propagandista e artístico, além de colaborar com suas operações, oferecendo informações e chamando-os quando necessário. Eu os defendo dos apologetas dos direitos humanos, que são amigos dos bandidos. Eu os defendo dos jornalistas oportunistas e ativistas políticos que adoram macular a imagem das nossas forças policiais. Defendo-os também dos ideólogos de esquerda que adoram defender aqueles que põem armas em minha cabeça, afinal, eles são coitadinhos, e sou um explorador nojento, mesmo não tendo um puto no bolso. Não consigo conceber nenhuma possibilidade de desenvolvimento da sociedade se a segurança estiver tão ameaçada. O primeiro remédio que deve ser dado neste caso de calamidade social é, a meu ver, o reforço contra o banditismo. Não há liberdade coisa nenhuma num lugar onde ninguém pode circular com tranqüilidade, onde comprar pão na padaria é perigoso, onde as operações policiais são sempre tachadas de erradas. As crianças têm de sentir segurança quando os policiais estão por perto, e de ver neles um signo de heroísmo e coragem.

 

Outro dos maiores inimigos da sociedade como um todo, e dos policiais também, é o ideal socialista. Utópico por natureza, é capaz de matar, destruir, criminalizar, prostituir e de fazer mais um monte de barbaridades por onde passar, tudo em nome de uma sociedade melhor (sic) que nunca acontece, pois o que acontece são seus processos de matanças, aumento da fome, do desespero, do subdesenvolvimento, de crenças ateístas que destroem o sentido de vida de incontáveis pessoas que só vão encontrar algum alento no suicídio. Um pequeno exemplo concreto relaciona-se com as pracinhas feitas com a intenção de “tirar os jovens das drogas e levá-los ao esporte”. As que conheço foram feitas no tempo em que o PT estava à frente dos Governos Municipais. Com a idéia de que o esporte dá mais razão à vida de jovens sem recursos, foram criados esses centros de formação de bandidos. O esporte só corrige desvios na medida em que a vida das pessoas passe a girar em torno do esporte e das conquistas advindas deles, assim como qualquer profissão o faria. Jamais um futebolzinho na praça pode corrigir rumos equivocados. A idéia é furada. São antros de drogados, marginais, traficantes e mais um monte de espécimes estranhas, além de um ou outro de bem perdido ali no meio. Tudo o que vem da utopia socialista é mentira, e sua ação é um tiro ao alvo injusto, afinal o tiro sempre sai na direção dos que cumprem com seus deveres e não têm nada a ver com bandidagem. Toda a população acaba vítima desse tipo de sujeira. Sujeira feita em nome da população.

 

E esse negócio de que a ladroagem ocorre por causa da pobreza é a conversa mais fiada que existe. De novo os lunáticos estimulando o crime. A Romênia e a Índia são países muitas vezes mais pobres que o Brasil e têm criminalidade desprezível. Conheço inúmeros exemplos próximos, como o do meu tio-avô que de faxineiro foi para proprietário de vários imóveis sem roubar e nem contar com a sorte, mas sim com sua competência. E as atuais ações de milícia no Rio de Janeiro, encorajadas pela população pobre contra os intoxicadores que levam toda a prole para a máfia, e não a uma vida honrada, justa e promissora.

 

Não me sinto nem um pouco inclinado a acreditar que eu deva esperar que políticos dêem mais verbas aos policiais para poder viver numa ordem social. Essa ordem já passou faz tempo da mera ameaça. Eu mesmo guerrearei contra o crime, contrariando essas mentiras. Quem não se revolta contra tanta brutalidade, contra essa violência iminente pela qual estamos sujeitos a sofrer dia-a-dia, é covarde. Esse tipo de violência crua, sem um mínimo de consideração e sentimento, não é fruto da pobreza, e nem somente da crueldade e psicopatia espontânea de certos assassinos, mas de idéias que nos fazem conviver com essas coisas, que incitam a atitudes extremistas, que pervertem a moral, os bons costumes. Tenho esperança de que a coragem apareça nos corações de meus concidadãos para que possamos combater juntos, e pensar em métodos eficazes para fazê-lo, contra essas condições tristes, profundamente violentas, urgentes, e que são nada mais do que a nossa lamentável realidade cotidiana.

Não tenho por objetivo esquadrinhar aqui todos os fundamentos e toda a estratégia do movimento estudantil. A pretensão única e exclusiva é a de narrar um fato, ocorrido no Estado de São Paulo, como ensaio aos primeiros esboços de uma compreensão cada vez mais precisa do que se faz no meio universitário com relação à política nacional. Sim, com relação à política nacional e até internacional! Seria muito bom se os colegas de outras regiões, como os do site Blogs Coligados, fizessem coisas semelhantes para que possamos nos informar com mais correção do que está realmente havendo no meio cultural mais ligado à política. Eis o resultado dos meus esforços neste sentido:

 

 

Dos primeiros movimentos num Congresso universitário que tinha por fim a formação do maior DCE local da história

 

 

O movimento estudantil deveria se chamar movimento político-universitário. Não tem a ver com estudo, tem só a ver com pessoas matriculadas em cursos do chamado Ensino Superior, e não passa de um meio de ação dos partidos políticos no meio universitário. Ou seja, é um movimento político, parte de uma estratégia de agremiação nacional, que não tem por finalidade NADA que se ligue ao estudo, nem superficial, nem profundo de quaisquer questões ligadas ou não aos cursos freqüentados. São palanques estabelecidos com fins meramente partidários, estratégicos, e ao mesmo tempo auto-promocionais, já que os gerenciadores da baderna são os próximos a galgarem cargos políticos, depois de muito gritarem em público suas mesquinharias.

O que vi, em outubro de 2006, no prédio de uma importante Universidade Católica, foi um movimento da esquerda política. Havia filiados ao PSOL, ao PCdoB, ao PT, e talvez a mais partidos comunistas. Se a ação da esquerda política, ao menos nacional, se dá do mesmo modo, pude encontrar algumas constantes em suas atuações, que foram suficientes para que qualquer brasileiro sinta repugnância por esse tipo de movimento. A orquestração disso, no escopo universitário, tem grande parte da atuação da UNE.

Ao usufruírem de liberdade quase irrestrita, gozando do uso de várias salas, de um salão-nobre e de almoço grátis, os responsáveis por tudo enfatizaram o quão tormentosos e difíceis são seus dias de explorados dentro do cruel ambiente universitário. Mais duros ainda quando em estabelecimentos privados e católicos. Exatamente a situação.

Com um discurso de quem não quer tomar partido em relação às próximas eleições presidenciais, o sujeito que falou em primeiro lugar deu exemplo da mais pura neutralidade, aproveitando o ensejo para dizer tudo o que pôde, mentindo descaradamente quando preciso, contra Alckmin, FHC, PFL e PSDB. E esta foi a tônica! Neutramente todos os organizadores tinham, colados em seus peitos ou mochilas, adesivos lulistas.

A reunião era um Congresso, donde apresentar-se-iam as chapas que concorreriam, em sufrágio, à composição do novo Diretório Central dos Estudantes. O Grande palanque estudantil! Falaram do método, que consistia numa divisão em pequenos grupos de discussão, de onde sairiam as propostas, mui democraticamente.

A seguir explicarei os métodos usados para lidarem com as chapas. E como, já não mais somente como observador, agi diante de tudo.

 

Da queda das máscaras

 

Não fosse eu uma vítima constante da minha própria falta de organização, estaria certo de que algum comunista roubou os papéis em que fiz anotações do dia do Congresso e análises posteriores. Sim, eles sumiram e não acho de jeito nenhum. Contarei os episódios relacionados ao método de formação das chapas e ao desmascaramento de toda a operação mentirosa, mafiosa, antidemocrática, cheia de bondade fingida, esquerdista de alcance continental (ufa!) de memória.O movimento político-universitário prosseguiu em sua ação, e reitero, seguindo os ditames de partidos políticos como provarei na seqüência. Sua tática foi a de juntar alguns grupos de discussão, se não me engano cinco, com mediadores que serviriam para que surgissem propostas bem definidas, cuidando muito bem para que a coisa não fugisse dos objetivos previamente estabelecidos nas mesas de reunião de seus respectivos partidos, e dos objetivos explícitos, que todos conheciam.

Fiquei num grupo de discussão mediado por um pessoal já conhecido por mim. Apresentei-me como um aluno comum, mas fizeram questão de enfatizar que eu sou velho de guerra. Depois de um tempo de bafafá indiscriminado, todo mundo parecia estar se perdendo ali. Foi pedido que os participantes dessem sugestões, propostas de ação. Pedi a palavra. Comecei por dizer que estava pouco à vontade quanto ao fato de estarmos entrando num acordo, ou apenas caindo na aceitação de algo por não se ter pensado mais no assunto. Disse, respondendo a provocações anteriores, que por burrice minha mesmo (houve protestos explícitos contrários a essa posição, o que me fez ganhar em força persuasiva) não tinha conseguido realizar projetos ligados à questão do movimento estudantil, aqueles que eu propunha em reuniões, como um Grupo de Estudos de Política. Não obstante, sem ajuda de DCE nem de CA, e não falando em nome de ninguém que não no meu mesmo, fiz acontecer o que havia planejado. Fundei um Grupo de Estudos e um periódico cultural. Prossegui, até abusando do tempo, dizendo que era bom que ficassem claros os conceitos que estavam sendo colocados à mesa, pois poderiam não ser os únicos e nem os melhores para a ação dos estudantes, e que isto não seria descoberto sem avaliação racional serena. Perguntei também a que este movimento todo estava ligado, se isso tudo não era uma tática, parte de uma estratégia maior, o que deveria ficar claro.

Parece que pus em movimento uma série de manifestações e pensamentos atípicos, visto que quase toda, ou toda, a seqüência foi feita com referência ao meu discurso. O pessoal “sacou que não tava sacando”. Alguns, dentre eles dois mais enfáticos, não aceitaram mais tomar posições sem prévia avaliação. Houve burburinho, até que, talvez por quererem de mim uma posição mais prática, retornaram a palavra a mim, pedindo que eu desse propostas. Disse que só tinha a proposta de fundar grupos maiores para estudar as situações apontadas como críticas pelo movimento. Até que um PSOLista, que simpatizou comigo, decidiu explicar melhor as coisas, perguntando se tudo estava claro pra mim e se podia ajudar com maiores esclarecimentos. Claro que ele poderia ajudar! Aproveitei o ensejo e desenvolvi mais uma das questões passadas despercebidas da primeira vez que falei. De onde vêm estas idéias? A quem o DCE obedece? Isso tudo é parte de uma estratégia política? As pessoas aqui são ligadas a partidos políticos? Se sim, quais?

Senti alguns constrangimentos, mas falei com tanta clareza e simplicidade que começaram por se declarar. Tinham filiados ao PCdoB, ao PSOL e ao PT, majoritariamente. Fora do grupo havia um sujeito, uma figura, que me deixou chateado por não ter descoberto a qual partido era filiado. Tinha a cara arquetípica de sindicalista, cara toda barbuda, com expressão de reclamão… Poderia ser do PCO.

As manifestações no grupo passaram a ser deveras unusuais. Muitos não estavam mais caindo na conversinha, às vezes, na berralheira, dos comunistas. Antes de terminar, uma das mediadoras soltou o verbo, muito exaltada, dizendo que “todos os grupos vão chegar lá com propostas, discutindo tudo. Como é possível que este, o melhor grupo, sairia dali com todo mundo dizendo não saber mais nada”? Pois é querida, esse é o efeito do método socrático! Se isso parece reacionário demais, pode chamar de método do Lula: Não sei de nada, afinal, como vou saber o que é o DCE, o que se faz nesse órgão, o que a reitoria faz ou deixa de fazer, como usam nosso dinheiro, e qual o melhor modo de agir enquanto estudante, se não dá pra saber nem o que ocorre na nossa cozinha quando estamos na sala? Se com uma gigante rede de informação, não é possível saber de um número imensurável de dinheiro desviado pra lá e pra cá, por que, sozinho, devo saber dos secretos desígnios da reitoria querendo me engolir, e do meu papel como estudante? Não sei, oras. Ah não, leitor, isso eu não falei lá; perigoso…

Depois disso houve o almoço. A maior dificuldade aí foi agüentar os indizíveis transtornos estomacais, e a vontade de rir com os amigos de tanta bobagem escutada. Sobrevivi. Comi e ri. Quando voltei para a parte final, momento em que seriam inscritas as chapas para a votação no final, passei mal de novo, acompanhado na dor por amigos. Decidimos ir embora.

Foi uma grande experiência. Pude comprovar uma série de hipóteses e pude testar minhas forças. Se tivesse cinco como eu ali, não haveria DCE constituído, mas sim, um aglomerado de grupos dedicados a aprofundamentos de estudos os mais variados, inclusive o que se relaciona com o panorama político nacional e internacional.

Desde menino eu sempre tive fixação pela questão da certeza. Angustiavam-me as historinhas contadas pela minha avó e pela educação religiosa dada no colégio em que estudei. Acreditava naquilo porque pessoas muito confiáveis, que eu tinha em alta conta, estavam me narrando, e por nenhum outro motivo. Ficava sempre uma pontinha de dúvida, que eu não conseguia expressar de forma nenhuma, mas que aumentou no decorrer do tempo e foi me afastando do grosso da crença generalizada pouco a pouco.Expressou-me a incerteza na minha vontade de conhecer outras culturas, outras religiões, e outras formas de relação com o divino. Nisso fui ajudado por uma infância incomum, não particularmente considerada, mas considerada enquanto dentro de uma geração educada num pluriculturalismo desorientador. Recebi influências as mais diversas: Desde documentários simples que eu mal entendia sobre outras formas de religiosidade, às cantorias dos Hare Krishna que moravam ao lado da minha casa, até o Jaspion, com seus incontáveis derivados, e as artes marciais. Tudo isso me fez por em dúvida TODO o sentido da existência que meus pais, avós e professores tentaram me inculcar. Sem total consciência do processo, por parte dos agentes, a minha geração recebeu todas as influências possíveis para o desvínculo com as crenças tradicionais, e no entanto, não forneceu orientação melhor. Mergulhou um grande número de pessoas num oceano de informações muito dificilmente identificadas segundo seus respectivos valores, o que tornou impossível toda e qualquer avaliação racional. Minha adolescência foi o exemplo disso. Um jovenzinho petulante, vendo um mundo incerto sobre tudo, crendo em coisas inacreditáveis, inventou sozinho um sistema explicativo da realidade e podia se bastar em termos de orientação espiritual. Obviamente com aquela duvidazinha por trás. Passei por seitas estranhas, e visitei uma dita fazenda ufológica. Experimentei alguns alteradores de consciência e treinei para conseguir produzir efeitos paranormais. A queda disso doeu tanto que sinto a dor até agora, embora já tenha levantado.

Com 17 anos, já no limiar da fase dolorosa para a fase mais dolorosa ainda, escrevia no meu cadernos textos auto-biográficos na linha dos de Descartes. Queria ter certeza de algo e me perguntava se era possível estar certo de alguma coisa. Se eu estou perguntando e estou certo de que pergunto eu tenho alguma certeza. Juro que pensei esta baboseira. Estava influenciadíssimo pela leitura de O Discurso do Método e pus em dúvida até as coisas indubitáveis. Mas este é o estado de quem está afogado em burrice e desorientação: Apelar a um francês debilóide. Bem, como eu ia dizendo, escrevi estas coisas num caderno que ainda tenho. Posso até mostrar aos amigos leitores, sei lá como. Posso escanear! Cheguei a conclusões altas demais e senti-me de novo sem certeza alguma do que pensava e escrevia. Cheguei até a “provar” um tipo de “Grande Ninho do Ser”, algo como a partir dum crescendo de certeza em certeza, chegar a concepção de corpo, mente, alma e espírito. Mostrei a algumas pessoas muito próximas e elas gostaram. Pena que nem eu acreditava naquilo.

Há pouco tempo consegui firmar certas posições. Consegui, finalmente, algum apoio aqui e acolá para conseguir estar certo de que é possível estar certo de alguma coisa. Não sei se tudo isso aí tem a ver com a característica astrológica do meu Sol que se encontrava na Casa IX quando do meu nascimento. Sei apenas que estes fatos interiores que narrei ocorreram de verdade. Estou narrando experiências, com o maior distanciamento possível de qualquer tipo de metafísica, para poder estar próximo à certeza da evidência experimental. Está aí um aspecto que me trouxe maior confiança cognitiva: a observação empírica (no sentido amplo que Ken Wilber dá a este termo). Não estou certo de que seja só isso. Mas estou certo de que a confiança que deposito na minha inteligência aumentou deveras.

Um dos textos mais esclarecedores sobre o assunto é o Inteligência e Verdade do prof. Olavo de Carvalho. Não foi só pelo contato com este escrito que consegui maior fé na minha capacidade cognitiva, mas ele ajudou. Um dos fundamentos do fato psicológico de estar certo de que se está certo de que se tem certeza (sim, é preciso saber que sabe que sabe que sabe) é a admissão de certas evidências, de certos dados de experiência óbvios que tinha de admitir forçosamente, sob pena de contrariar os mais simples dados da realidade. Estes dados, por sua vez, implicavam num monte de outras coisas, que ou eu admitia, ou negava a simples apreensão primitiva. Um exemplo simples é o da certeza de que estou escrevendo para publicar num blog, por meio de um computador, pressionando meu dedo sobre teclas, que contêm signos, que são as letras do alfabeto que aprendi quando era muito pequeno. Aceitando os dados desta pequena frase, eu terei de levar em consideração que o blog é um meio eletrônico de publicação de textos feito com apoio na rede mundial de ligação de computadores correntemente chamada de internet, e também que o computador é um aparelho que eu não sei como funciona, mas que alguém certamente sabe, e também que o teclado foi feito especialmente com um conjunto de signos admitidos e compreendidos por uma imensa comunidade de pessoas etc etc etc. Tudo isso é certo. Não tem como duvidar. Se eu duvidar, não há mais blogs, nem internet, nem computadores, nem teclas, e, vai saber… nem dedos. Do nada eu comecei a acumular um volume tal de certezas que não dava mais pra parar quieto na madrugada, olhar para o nada e perguntar com cara de francês: Será que eu existo mesmo?

De cada experiência é possível extrair alguma certeza ou, ao menos, uma elevação no grau da certeza que se tem. Com isso, pude reavaliar cada uma das experiências importantes que recordo desde o meu nascimento, examinando o impacto na minha psique, extraindo com isso a certeza de que minha própria história não tem a clareza de um conjunto bonitinho de causas e efeitos que se sucedem em elos perfeitamente reconhecíveis. Mas a certeza da obscuridade quanto ao meu próprio desenvolvimento, quanto à minha própria biografia chocou-me e levou-me a questionar os fatores caóticos, vamos dizer assim, existentes por acaso, que originaram certos comportamentos de minha parte, diria até que a maioria. Pouquíssimas vezes eu estava obedecendo a um plano próprio, desenvolvido por mim para a minha própria vida. Parecia que só causas de impossível identificação agiam sobre mim. E eis que daí surgem fulgurantes as perguntas fundamentais. Isso é longa história, mas imagino que este seja o marco da espiritualidade genuína. A brecha que qualquer alma precisa para a luz entrar. Se não tenho controle nenhum nenhum nenhum sobre meus atos, e se minha “consciência” é uma semi-consciência indigna de um gorila, que raio de ser eu sou, visto que posso, no entanto, formular esta questão? Devo entregar-me às forças esmagadoras da natureza? Dos deuses? Do Deus Único (de qual monoteísmo? sei lá!)? Do acaso? Do quê? Que influências estarrecedoras são estas que aparecem na minha mente imediatamente como explicações da realidade, sem que eu tenha comprovado absolutamente nada delas? São mesmo representações mentais do real, ou são crendices imbecis? Por que eu não sei o porquê d’eu existir? Por que eu existo? Faz sentido eu ter aparecido como que por encanto, assim como parecem ser meus atos? Ou fui criado, assim como parecem ser outros de meus atos, muito muito menos numerosos? Se fui criado, para que o fui? E Quem me criou? Quem é o Criador?

Quem souber tudo isso aí me conta já! Não estou certo de ter as respostas fundamentais, mas apenas hipóteses de maior ou menor probabilidade para efeitos de ação prática diária. Não posso esquivar-me de viver porque não sei por que vivo. Já sei um monte de coisas, e sei que as sei. Digo mais. Sei que sei que sei tudo isso aí. Sei que escrevo tudo isso tentando ir do processo da minha experiência real, ao da minha imaginação, ao da elaboração de signos verbais adequados e, finalmente, à escrita mesma, objetivando que tudo isso vá produzir efeitos reais nas psiques dos leitores e posteriormente na vida física, mesmo que haja rejeição a toda minha exposição verbal. Mesmo assim, não consigo estar certo do que é o principal em minha vida, e meus contemporâneos, quiçá a humanidade quase inteira já morta, não sabem nada nada nada dessas coisas. São uns acreditadores de ladainhas inverossímeis. Não pararei de trabalhar para minha própria elucidação. Prometo que a divulgarei se chegar a conquistá-la.

Agradeço aos leitores a paciência empregada na leitura, virtude esta que, possivelmente, ajudei a exercitar.

(Escrevi tudo de uma vez. Depois corrijirei tudo. São 8h00 am e estou morrendo de sono.)

(Já fiz algumas correções.)

Abraços!