Em meio a estudos da matéria a que serei avaliado na universidade em menos de 48 horas, li e reli alguns textos do filósofo e jornalista espanhol Ortega y Gasset. Ortega escreveu um livro chamado “A rebelião das massas”, ou, como um amigo chama “A revolta do ravióli”. No livro constam artigos sobre sua compreensão de convivência humana, e digo mais, até de natureza humana, publicados no periódico de Madrid, El Sol. O espanhol pareceu colaborar com o meu desvio de foco de atenção do direito a outros estudos que, ao menos quando distraído considero mais interessantes, afirmando que “o direito é a secreção espontânea da sociedade”, não seu acordo, o que muito me intrigou. Da idéia geral que captei de sua leitura extraí o fundamento desta crônica.
Como já escrevi, nós os jovens brasileiros, “somos todos filhos de uma grande desorientação”. Atribuí as causas dessa descaracterização à “derrota acachapante da auto-consciência contra as influências externas, que vieram graças aos avanços da ciência positiva, que nos trouxe a tecnologia que, por sua vez, permitiu a comunicação global. Passamos de uma vida que era reflexo distante da vida tradicional européia a uma incompreensão mórbida, capaz de destruir sem escrúpulos toda capacidade de entender para onde se caminha.” Ora, isso tudo não é exclusivo deste país. Todas essas coisas já aconteciam na Europa. Enquanto éramos ainda um reflexo da Europa barroca, lá eles se modernizavam e, sua sociedade se uniformizava, perdendo os matizes da sociedade tradicional. E nem havia Internet! Mas, é claro que a proximidade das diversas nações, e do desenvolvimento das comunicações contribuiu para tal. Ortega definiu essa mudança da civilização como uma “pavorosa homogeneidade de situações em que vai caindo todo o Ocidente”.
Adorei ler Ortega. Nunca tinha dado a ele a atenção que merecia. Em relação ao diagnóstico que fiz, quando me referi às ciências positivas, acho interessante citar a visão do espanhol. Eu lidei mais com o aspecto do desenvolvimento das comunicações sem um acompanhamento de auto-consciência, visto que, pelo contrário, significou um eclipse do resto de visão crítica e histórica que as pessoas tinham sobre si mesmas. Ele tratou mais da discrepância entre o que se desenvolveu tecnologicamente e o que foi feito em relação às humanidades, o que é perfeitamente complementar com meu pensamento: “Há uma incongruência entre a perfeição das nossas idéias sobre os fenômenos físicos e o atraso escandaloso das ciências morais. O Ministro, o professor, o físico ilustre e o novelista soem ter dessas coisas conceitos dignos de um barbeiro suburbano. Não é perfeitamente natural que seja o barbeiro suburbano quem dê a tonalidade do tempo?”.
Foi dito sobre homogeneidade e sobre a miséria moral. O barbeiro, não é necessariamente representante da miséria moral, é o símbolo da pessoa média. Aquele que não tem muito a dizer, nem muito a fazer, mas que vive para si e por si. Os intelectuais que ele compara com o barbeiro são os de quem se espera excelência moral. No entanto, são como os barbeiros. Ora, quem nunca viu isso aqui? Talvez a excelência moral exista em algum nonagenário, mas não conheço nenhum. Alguns septuagenários que conheço são sim sujeitos que superam essa média, além de um ou outro sexagenário. Não consigo pensar em mais camada nenhuma que eu tenha tomado contato que não caia na descrição precisa de Ortega. As nossas cabeças incluem-se nisso sim, como podemos ver por esta frase: “Esse homem-massa é o homem previamente despojado de sua própria história, sem entranhas de passado e, por isso mesmo, dócil a todas as disciplinas chamadas ‘internacionais’”. Por aqui, em relação à nossa história, só se fala em “ditadura militar”. E, fora o PRONA, não conheço projetos que nos façam refletir sobre nossa nacionalidade. E quanto aos tais raros espécimes?
No início do livro, Ortega distingue o homem excelente do homem vulgar dizendo que aquele é “o que exige muito de si mesmo”, e este, “o que não exige nada, apenas contenta-se com o que é e está encantado consigo mesmo”. Fico tentado a explicá-los mais e assim o farei.
Começo pelo pior, para terminar em escala ascendente. Segundo Ortega, o mundo do século XIX, produziu automaticamente um homem novo, e intrometeu nele “formidáveis apetites, poderosos meios de toda ordem para satisfazê-los – econômico, corporais (higiene, saúde média superior à de todos os tempos), civis e técnicos (entendo por estes a enormidade de conhecimentos parciais e de eficiência prática que hoje o homem médio possui e de que sempre careceu no passado) -. Depois de haver estabelecido nele todas estas potências, o século XIX o abandonou a si mesmo, e então, seguindo o homem médio sua índole natural, fechou-se dentro de si. Desta sorte, encontramo-nos com uma massa mais forte que a de nenhuma época”.
Já a vida do homem excelente “não lhe apraz se não a faz consistir em serviço a algo transcendente. Por isso não estima a necessidade de servir como uma opressão. Quando esta, por infelicidade, lhe falta, sente desassossego e inventa novas normas mais difíceis, mais exigentes, que a oprimam. Isto é a vida como disciplina – a vida nobre -. A nobreza define-se pela exigência, pelas obrigações, não pelos direitos.” Ortega chega a citar Goethe: “Viver a gosto é de plebeu: o nobre aspira a ordenação e a lei”.
Para Ortega, nobreza é sinônimo de vida esforçada, posta sempre a superar-se a si mesma, “a transcender do que já é para o que se propõe como dever e exigência”. Afirma que, desta maneira, “a vida nobre fica contraposta à vida vulgar e inerte, que, estaticamente, se reclui a si mesma, condenada à perpétua imanência, caso uma força exterior não a obrigue a sair de si. Daí que chamemos massa a este modo de ser homem – não tanto porque seja multitudinário, quanto porque é inerte”.
Por que fazer diferente, senão inspirar-me pelos que “são os homens seletos, os nobres, os únicos ativos e não só reativos, para os quais viver é uma perpétua tensão, um incessante treinamento. Treinamento = áskesis. São os ascetas”? Não vejo outra saída a não a ser a de seguir um caminho análogo, já percorrido pelos ilustres da cidade de Santos que representaram com sua vida e labor tudo o que diz o sujeito de Madrid.
Para completar essa nova amizade intelectual, e a luz que esse fato me trouxe, cito-o em sua resposta ao Zeca Pagodinho, sujeito que trabalhou, mesmo que inconscientemente, a serviço da destruição das forças morais, já parcas, dos brasileiros: “Numa época como a nossa é bom tomar contato com os homens que não se deixam levar”. Nós, os jovens, desorientados todavida, não poderemos construir nada diferente se não optarmos por esta nobreza. Finquemo-nos em nossa história, construamos, segundo nossas possibilidades nossas vidas individuais sobre as bases do trabalho abnegado e com fins transcendentes. Cultivemos o estudo e a tenhamos a imagem clara do responsável pela existência de nosso rincão: José Bonifácio. Não preciso dizer que senti uma afinidade espiritual fora do comum com este filósofo da terra de Cervantes. Agora, já disse.