Está passando semanalmente um programa que pretende popularizar a Filosofia. Seu nome? “Ser ou Não-Ser”. É um quadro do Fantástico, aquele programa dominical insuportável da Globo. Pois com esse quadro não poderia ser diferente. Meu temperamento rejeitou-o imediatamente. As imagens, a adaptação para a T.V., os exemplos, as histórias, os temas abordados, as entrevistas… Tudo estava me irritando. As explicações de coisas extremamente simples me pareciam demoradas e “didáticas” demais, e as analogias feitas para que o pensamento abstrato do autor pudesse ser visualizado pareciam-me impróprias. Principalmente a do “mito da caverna” de Platão. Mas, não estou com vontade de falar sobre isso… Quem quiser saber que me pergunte.
Para não ser vítima dos caprichos instintivos e personais, resolvi assistir com paciência no domingo mais recente, para poder julgar com clareza. E não é que eu ouço uma abobrinha imensa!?! Era dia de apresentar Aristóteles, e a “filósofa” responsável escolheu por tema a sua lógica (há tantos outros temas aristotélicos mais interessantes e pertinentes ao objetivo de popularização…). Num dado momento, citou Nietzsche, e ele parecia estar num daqueles dias em que estava a fim de falar mal da lógica. Nisso não me surpreendi, pois esperava dela algo parecido, e conheço algumas das posturas mais exageradas do doudo alemão… Mas depois, ela forçou a barra.
Ensinou o princípio de não-contradição. Disse que esse princípio consiste na impossibilidade de negar o que já foi afirmado, ou de afirmar o que já foi negado. Depois, perguntou para um feirante se ela poderia estar ali e em outro lugar ao mesmo tempo. O feirante disse que não. Afinal, ele é ignorante, mas não passou pelo processo de jumentalização chamado Universidade. Ela disse (não exatamente, porque cito de memória): Como não? Eu posso estar aqui e minha “cabeça” estar em outro lugar.
Impressionante como estava me “matando” o fato d’aquela mulher estar ensinando abobrinhas no maior veículo de comunicação do Brasil.
Ao ensinar o tal princípio de não-contradição, esqueceu de dizê-lo com todas as palavras, o que faço aqui e agora: Uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo e sob o mesmo ponto de vista. Bom, mas isso contraria a fala dela ao feirante, pois ele entendeu por “estar aqui” o fato empiricamente observável da presença físico-corporal, enquanto ela falava de uma presença de atenção, da presença mental. Obviamente, eles estavam falando a partir de pontos de vistas diferentes. Ora, isso é muito fácil de compreender. O difícil é compreender que isso era uma lição de filosofia dada para incontáveis brasileiros.
Sim, dá pra compreender: loucura, burrice ou safadeza. Ela tinha citado Nietzsche com a finalidade de mostrar a superação de Aristóteles, o ingênuo macedônico. Portanto, o princípio que ela ensinou, por ser aristotélico, não vale de nada. Assim, ela pode se contradizer à vontade e afirmar que está ensinando o princípio de não contradição nas telas de Rede Globo, mas na verdade não está. Afinal, o que é a verdade, né? (Terrível!!!)
Entendeu a dificuldade, amigo? Não? Achou essa justificativa coisa de maluco, ou simples “discordância” aos princípios de lógica? Se seguiu a primeira opção, então talvez ainda reste inteligência por aí. Porém, se achou linda a lição de filosofia da senhora “fantástica”, nem precisa continuar. Já está burro ou doudo.
Ela errou a aplicação do princípio. O exemplo foi indevido, assim como todos os outros que apelavam às emoções. Só demonstrou sua tremenda inabilidade lógica. Isso é um serviço de malvadeza para com a mente das pessoas que assistem de boa-fé achando que vão receber algo dos conhecimentos maravilhosos dos filósofos. Já é uma adaptação extremamente forçada, pior ainda conter informações erradas e analogias horríveis. Parece que é filosofia especialmente preparada por e para retardados mentais!
Agosto 26, 2005 at 3:31 am
O que esperar de uma rede de TV que faz parte do lobby do desarmamento e que acha o Criança Esperança a coisa mais supimpa do mundo?
Agosto 27, 2005 at 6:29 am
Coincidentemente assisti ao Fantástico no mesmo dia… Lembrei de você na hora… imaginei o que você diria.. eheheh era mais ou menos isso o que eu imaginei… excelentes críticas, apesar de grande parte eu não ter conhecimento para poder fazer uma apreciação… tem novidades no meu blog.. passa lá depois… ah.. a propósito… Parabéns!
Agosto 28, 2005 at 5:49 am
Bem, devemos analisar a globo né:
1- Ela se diz preocupada com os temas que deixam a maioria dos adolescentes HIPER preocupados. Por isso passa Malhação, um programa debilóide, mini novela-das-8-que-passa-as-9 que prega coisas como “você já viu o novo always ultra-fino?”.
2 – Mostra pequenas histórias super bonitas de algum pé rapado que sem querer achou uma maleta com um mega dinheiro e devolveu ao empresário ladrão que perdeu no caminho para a compra de sua nova casa de campo em gramado. E depois recebeu 1/10 do dinheiro e terminou sua casinha.
3 – Se acha A TV inteligente. “Não apelamos, não fazemos dinheiro sensacionalista! Somos OS cultos”. Mas falam qualquer merda pra ficar bonitinho.Para daí todo mundo sair pra shopping/cabelelerio etc e falar pro amigo mais próximo… “então platão disse isso… e blablabla” – “nossa, onde você aprendeu isso?” “Na glooobo menina!”.
4 – “Teeeerr um amigooo na vida é tão bom teeer amigo”
Agosto 28, 2005 at 10:57 pm
O problema é que, justamente por ser o maior veiculo de comunicação do país, a Globo só pega profissionais conceituados, e como estamos no Brasil, conceituado = incompetente/charlatão/manipulador = esquerdista. Um abraço
Setembro 12, 2005 at 6:46 pm
Oi Rafa, tudo bem?!
QUe surpresa, não sabia que vc tinha blog. Aliás, corrigindo, não sabia que ESTE blog era seu… :]
Tudo de bom
abraço,
Mariana Hiaya
Janeiro 11, 2006 at 4:06 am
ser burro ou doudo também implica concordância com o texto veiculado. Assim, parar em Aristóteles como o “gênio maior” da filosofia e não compreender o que veio depois, ou visualizar que a filosofia não é passatempo mental de uns ou outros desocupados, mas algo que pode ser ensinado e aprendido (por que, nasceu sabendo?), não tem nem nome. Ou estaria abaixo da categoria de burrice envernizada?
Não que a globo seja o melhor veículo para popularizar a filosofia, ela faz o oposto. Mas aferrar-se a este único exemplo para se opor à difusão da filosofia em geral é de uma miopia e de uma jumentalidade rebaixantes.
Nada mal.
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velez
Janeiro 19, 2006 at 8:14 pm
Sr. Velez,
não me lembro de termos conversado sobre filosofia medieval, moderna ou contemporânea. Nem de termos falado sobre educação filosófica. Aliás, eu JAMAIS afirmei que filosofia é passatempo de desocupados. Nem Aristóteles.
Filosofia não é passatempo, nem atividade para todo o povo, no estado em que este se encontra. O resultado de popularizações indevidas é mentalidades do naipe da do sr. Velez. Comunizar o conhecimento é ter de rebaixá-lo, forçosamente. Todos podem aprender qualquer coisa, desde que se tornem aptos a isso. Não é o conhecimento que tem que se diminuir para dar conta de mentes incultas. E eu falo de mentes incultas, não de bolsos vazios. Se é pobre, paupérrimo ou milionário, não importa.
Eu sei que pra ser comunista é preciso acreditar em tantas asneiras e pressupor como certas tantas invencionices que o sr. nem liga para quem eu sou ou para como eu penso. Inventa que sou um elitista, conservador, fascista, e depois disso, briga com a minha caricatura. É lamentável. Muitos foram assassinados por bostas como o sr., que atacam imagens criadas pela imanigação populista e “profética” de um mundo melhor.
Mais mongolóide do que qualquer merda “”"ensinada”"” pela Globo, é com certeza o sr.
Vá lá criar panfletos idiotas e pare de tomar meu tempo.