Leio textos religiosos de um modo especial, próprio para esse tipo de estudo. Baseio-me muito no que Sócrates ensina no livro “Eutífron” (diálogo escrito por Platão) se referindo à religião grega:

“(…) EUTÍFRON: Eu ousaria dizer, desde já, sem mudança alguma, que é piedoso exatamente aquilo que todos os deuses aprovam, enquanto, ao contrário, é ímpio tudo o que os deuses rejeitam.

SÓCRATES: Mas não será justo que analisemos, Eutífron, nesse caso, se falas com acerto? Ou deveremos nos considerar satisfeitos e não perguntar nada a nós mesmos e aos demais, aceitando aquilo que qualquer um diga? Não convirá analisar o que nos declaram?

EUTÍFRON: Não existem problemas, mesmo que, no que diz respeito a mim, mantenha-me firme no que afirmei.

SÓCRATES: Um momento, estimado amigo, temos um caminho melhor. Raciocina sobre isto: o que é piedoso tem a aprovação dos deuses pelo fato de ser piedoso, ou é piedoso por ter a aprovação dos deuses? (grifo meu)
EUTÍFRON: Não entendo o que pretendes
dizer, Sócrates. (…)”

 

Há muito mais aí… Sócrates detalha mais, dá exemplos analógicos, apurrinha Eutífron até o tempo acabar. Enfim, essa breve citação foi tirada de um texto escrito na juventude de Platão quando provavelmente ele só relatava os diálogos de Sócrates, e que trata da religiosidade e de uma virtude específica, a saber, a piedade. O que eu quis mostrar é que podemos considerar os estudos religiosos por algumas perspectivas:

 

a) A de que questões religiosas não devem ser analisadas, porque são objeto de fé, crença, preferência etc, desprezando racionalizações;

b) A de que questões religiosas devem ser analisadas, porque são objeto de análise objetiva e subjetiva, ignorando autoridade e desprezando crenças infundadas;

c) A de que o correto e louvável é o que dizem os deuses, Jesus, Buda, Krishna, Alah, etc (dependendo da religão);

d) A de que os deuses, Jesus, Buda, Krishna, Alah, etc (dependendo da religão), ensinaram o que ensinaram por ser o correto e louvável;

 

Poderíamos aprofundar essa questão, mas fiquemos por aqui. Sou adepto das perspectivas (b) e (d) e é assim que eu as estudo. Portanto, fico à vontade para amar e seguir em direção à Verdade, sem precisar me filiar à religião alguma, pois a mim, todas são objeto de análise, trazem informações preciosas, mas pela distância temporal de seus fundadores, divergem entre si, mesmo tendo o fundador em comum, e podem ter perdido ou pervertido seus ensinamentos originais. Sem contar a reflexão que pode ser feita acerca das concepções de seus ensinamentos, pois o correto e louvável dado por eles é mesmo o correto e louvável? Este é um doa grandes motivos que me fazem não ser teólogo nem religioso. Estudo e respeito as tradições religiosas, mas sei das suas inúmeras dificuldades intelectuais.