Agosto 2005


Está passando semanalmente um programa que pretende popularizar a Filosofia. Seu nome? “Ser ou Não-Ser”. É um quadro do Fantástico, aquele programa dominical insuportável da Globo. Pois com esse quadro não poderia ser diferente. Meu temperamento rejeitou-o imediatamente. As imagens, a adaptação para a T.V., os exemplos, as histórias, os temas abordados, as entrevistas… Tudo estava me irritando. As explicações de coisas extremamente simples me pareciam demoradas e “didáticas” demais, e as analogias feitas para que o pensamento abstrato do autor pudesse ser visualizado pareciam-me impróprias. Principalmente a do “mito da caverna” de Platão. Mas, não estou com vontade de falar sobre isso… Quem quiser saber que me pergunte.

Para não ser vítima dos caprichos instintivos e personais, resolvi assistir com paciência no domingo mais recente, para poder julgar com clareza. E não é que eu ouço uma abobrinha imensa!?! Era dia de apresentar Aristóteles, e a “filósofa” responsável escolheu por tema a sua lógica (há tantos outros temas aristotélicos mais interessantes e pertinentes ao objetivo de popularização…). Num dado momento, citou Nietzsche, e ele parecia estar num daqueles dias em que estava a fim de falar mal da lógica. Nisso não me surpreendi, pois esperava dela algo parecido, e conheço algumas das posturas mais exageradas do doudo alemão… Mas depois, ela forçou a barra.
Ensinou o princípio de não-contradição. Disse que esse princípio consiste na impossibilidade de negar o que já foi afirmado, ou de afirmar o que já foi negado. Depois, perguntou para um feirante se ela poderia estar ali e em outro lugar ao mesmo tempo. O feirante disse que não. Afinal, ele é ignorante, mas não passou pelo processo de jumentalização chamado Universidade. Ela disse (não exatamente, porque cito de memória): Como não? Eu posso estar aqui e minha “cabeça” estar em outro lugar.

Impressionante como estava me “matando” o fato d’aquela mulher estar ensinando abobrinhas no maior veículo de comunicação do Brasil.

Ao ensinar o tal princípio de não-contradição, esqueceu de dizê-lo com todas as palavras, o que faço aqui e agora: Uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo e sob o mesmo ponto de vista. Bom, mas isso contraria a fala dela ao feirante, pois ele entendeu por “estar aqui” o fato empiricamente observável da presença físico-corporal, enquanto ela falava de uma presença de atenção, da presença mental. Obviamente, eles estavam falando a partir de pontos de vistas diferentes. Ora, isso é muito fácil de compreender. O difícil é compreender que isso era uma lição de filosofia dada para incontáveis brasileiros.

Sim, dá pra compreender: loucura, burrice ou safadeza. Ela tinha citado Nietzsche com a finalidade de mostrar a superação de Aristóteles, o ingênuo macedônico. Portanto, o princípio que ela ensinou, por ser aristotélico, não vale de nada. Assim, ela pode se contradizer à vontade e afirmar que está ensinando o princípio de não contradição nas telas de Rede Globo, mas na verdade não está. Afinal, o que é a verdade, né? (Terrível!!!)

Entendeu a dificuldade, amigo? Não? Achou essa justificativa coisa de maluco, ou simples “discordância” aos princípios de lógica? Se seguiu a primeira opção, então talvez ainda reste inteligência por aí. Porém, se achou linda a lição de filosofia da senhora “fantástica”, nem precisa continuar. Já está burro ou doudo.

Ela errou a aplicação do princípio. O exemplo foi indevido, assim como todos os outros que apelavam às emoções. Só demonstrou sua tremenda inabilidade lógica. Isso é um serviço de malvadeza para com a mente das pessoas que assistem de boa-fé achando que vão receber algo dos conhecimentos maravilhosos dos filósofos. Já é uma adaptação extremamente forçada, pior ainda conter informações erradas e analogias horríveis. Parece que é filosofia especialmente preparada por e para retardados mentais!

Leio textos religiosos de um modo especial, próprio para esse tipo de estudo. Baseio-me muito no que Sócrates ensina no livro “Eutífron” (diálogo escrito por Platão) se referindo à religião grega:

“(…) EUTÍFRON: Eu ousaria dizer, desde já, sem mudança alguma, que é piedoso exatamente aquilo que todos os deuses aprovam, enquanto, ao contrário, é ímpio tudo o que os deuses rejeitam.

SÓCRATES: Mas não será justo que analisemos, Eutífron, nesse caso, se falas com acerto? Ou deveremos nos considerar satisfeitos e não perguntar nada a nós mesmos e aos demais, aceitando aquilo que qualquer um diga? Não convirá analisar o que nos declaram?

EUTÍFRON: Não existem problemas, mesmo que, no que diz respeito a mim, mantenha-me firme no que afirmei.

SÓCRATES: Um momento, estimado amigo, temos um caminho melhor. Raciocina sobre isto: o que é piedoso tem a aprovação dos deuses pelo fato de ser piedoso, ou é piedoso por ter a aprovação dos deuses? (grifo meu)
EUTÍFRON: Não entendo o que pretendes
dizer, Sócrates. (…)”

 

Há muito mais aí… Sócrates detalha mais, dá exemplos analógicos, apurrinha Eutífron até o tempo acabar. Enfim, essa breve citação foi tirada de um texto escrito na juventude de Platão quando provavelmente ele só relatava os diálogos de Sócrates, e que trata da religiosidade e de uma virtude específica, a saber, a piedade. O que eu quis mostrar é que podemos considerar os estudos religiosos por algumas perspectivas:

 

a) A de que questões religiosas não devem ser analisadas, porque são objeto de fé, crença, preferência etc, desprezando racionalizações;

b) A de que questões religiosas devem ser analisadas, porque são objeto de análise objetiva e subjetiva, ignorando autoridade e desprezando crenças infundadas;

c) A de que o correto e louvável é o que dizem os deuses, Jesus, Buda, Krishna, Alah, etc (dependendo da religão);

d) A de que os deuses, Jesus, Buda, Krishna, Alah, etc (dependendo da religão), ensinaram o que ensinaram por ser o correto e louvável;

 

Poderíamos aprofundar essa questão, mas fiquemos por aqui. Sou adepto das perspectivas (b) e (d) e é assim que eu as estudo. Portanto, fico à vontade para amar e seguir em direção à Verdade, sem precisar me filiar à religião alguma, pois a mim, todas são objeto de análise, trazem informações preciosas, mas pela distância temporal de seus fundadores, divergem entre si, mesmo tendo o fundador em comum, e podem ter perdido ou pervertido seus ensinamentos originais. Sem contar a reflexão que pode ser feita acerca das concepções de seus ensinamentos, pois o correto e louvável dado por eles é mesmo o correto e louvável? Este é um doa grandes motivos que me fazem não ser teólogo nem religioso. Estudo e respeito as tradições religiosas, mas sei das suas inúmeras dificuldades intelectuais.