Aristóteles, em sua obra Topica, diz que não se deve discutir com certo tipo de pessoas. A dialética não funcionaria sem que os pólos da discussão fossem esclarecidos das suas regras. Esses pólos podem ser mestres (professores) e discípulos (alunos), os que tomam parte em disputas e discussões intelectuais, e os que realizam investigações científicas. São imprescindíveis aos que perseguem a verdade regras para o funcionamento de um diálogo que pretende terminar com um número maior de certezas do que havia antes de começar. Diferentemente da lógica, ou analítica, na dialética não se parte de premissas consideradas verdadeiras, mas de premissas prováveis e verossímeis, confrontando-as no intento de descobrir algo novo ou atingir um grau mais alto na escalaridade das certezas. Segundo o estagirita, o debate deve caminhar dentro dos limites da lealdade intelectual.
Na minha experiência pessoal, embora eu ainda não domine todas as regras da dialética, percebi com clareza um dos tipos que devem ser evitados nas discussões. Aconselho que jamais se discuta com os que relativizam a verdade ou dizem que ela não existe. Eles agem e falam como se tivessem o conhecimento da Verdade, não se contendo diante de diferenças, diferenças estas que tanto defendem em seus discursos. Este espetáculo de contradições é um show de horrores para o funcionamento da dialética.
Abril 28, 2005 at 2:26 pm
Só tome cuidado para não desprezar aqueles que estudam diferentes facetas d’A Verdade sob perspectivas diversas, pois, ainda que seja absoluta, ela se apresenta de diferentes formas a diferentes referenciais, como já dizia o mais famoso físico alemão e homem do século da revista Times.
Abril 28, 2005 at 4:49 pm
Tomarei cuidado! Mas entendo que não há possibilidade de existir uma faceta da Verdade em que a Verdade seja inexistente. Se inexiste não tem faceta, não é assim? Acho que Einstein não dicordaria disso! Ou será que discordaria?
E não esqueça de se identificar, ok?
Saudações!
Abril 28, 2005 at 6:02 pm
Mas como alguém que alega a relatividade da Verdade pode agir ou falar como se tivessem o conhecimento Dela??? Daí ela não seria relativa… Essa relatividade repousa na certeza que ninguém pode afirmar nada a respeito Dela (olha o absolutismo… =p). É igual o que o prof. Walter falou sobre os ateus pra você… eles são uma religião também (por mais que eles tentem nos matar por falar uma coisa dessas…). A Verdade ainda está vários níveis acima da compreensão humana… talvez daqui a uns milênios de evolução nós possamos entender pelo menos algum lado dessa maravilhosa Deusa multifacetada. =) Abraços.
Marcelo Gonzaga – estudante de Direito e Mestre nas horas vagas! =)
Maio 1, 2005 at 12:54 am
“Tomarei cuidado! Mas entendo que não há possibilidade de existir uma faceta da Verdade em que a Verdade seja inexistente. Se inexiste não tem faceta, não é assim?”
De fato, não discordo. As discrepâncias não chegam a tal ponto, o que seria verdadeiramente um absurdo.
“Acho que Einstein não dicordaria disso! Ou será que discordaria?
De forma alguma, pelo menos é o que indicam todos os seus trabalhos. Na verdade, a teoria da relatividade (a restrita e a geral) é na verdade uma teoria de absolutos, que mostra que diferentes referenciais têm percepções diferentes, mas cada um consegue determinar o que os outros percebem, e esse conjunto é absoluto. Um pouco mais complicada ficaria uma teoria quântica da verdade…
“E não esqueça de se identificar, ok?
”
Quantos amigos você tem que acham que entendem alguma coisa de física e são pedantes o bastante para citar o Albert?
Saudações também!
Vitor Eiji – estudante de Ciências Moleculares, autor do primeiro comentário e discípulo a toda hora.
Maio 1, 2005 at 4:49 am
Bom, Marcelo, discrepância entre discurso e conduta não é coisa incomum. A incompatibilidade entre dois discursos proferidos por uma mesma pessoa também não é coisa lá tão difícil de ser encontrada. Mas, a estrutura interna de um único discurso ser incoerente, embora pareça difícil de existir, é o exato fenômeno a que me referi, em poucas palavras, no post. – A Verdade absoluta não existe! – dizem os propagadores do caráter relativo da verdade, ao mesmo tempo em que enunciam uma frase de pretensão absoluta. Ou também: — A Verdade é relativa à perspectiva de cada um. Cada um percebe fenômenos diversos, e não há uma constância. Se um sujeito pensa que existem vários deuses regendo o universo, e os glorifica, esta é a verdade dele. Se outro pensa que não há valores que devam ser respeitados, que não se deve contar com nenhum sentido de vida, para além do que nó mesmos damos a ela, e que devemos saber que caminhamos para nosso desaparecimento do universo – essa é outra verdade que rege o universo próprio deste outro ser. Mas, caro colega de faculdade, o que é esta afirmação, aplicando o conteúdo contido nela a ela própria? Não seria uma perspectiva? Tão verdadeira quanto todas as outras? Um universo próprio que caminha quase que em separado de todos os outros, embora queira se impor como Verdade a todos, através de discussões inflamadas, livros, idéias propagados como justificativas para determinados tipos de atitudes..? O que é esse fenômeno? Eu considero um defeito cognitivo. Uma doença cerebral. Uma enfermidade que se não for concertada sairá por aí entortando cérebros de outros seres. Tenho vantagem de meu corpo não permitir a ceitação dessas idéias, pois elas entram se chocando de tal maneira que só de pensar em adotá-las meus órgãos, principalmente os digestivos entram em colapso. É coisa de temperamento. Ah… Há ainda outro tipo desses doidinhos: — Há uma verdade adequada a cada tempo histórico. Na Grécia clássica era plausível ver o mundo como Aristóteles e Platão, na Idade Média a verdade era a revelação divina, na modernidade era o que a razão nos apresentava e hoje, como num movimento de avanço que na verdade regride, andamos para trás examinando com mais cuidado nossos pressupostos, colocando-os em cheque, e com isso percebemos que todas essas verdades eram perspectivas, mas perspectivas limitadas pelo seu tempo. Hoje é concebível o niilismo, mas acreditar na Verdade como os clássicos faziam ou admitir uma religião, é viver anacronicamente, fora de seu tempo. – O pior de tudo é que isso é absolutizar a idéia de que devemos estar com as idéias de nosso tempo, sob pena de não entendê-lo. E… Praticamente ninguém da Grécia clássica pensava como Platão e Aristóteles. Muitos dos pensamentos hoje consagrados eram propagados pelos sofistas, e, portanto, não são nada novos. Esse pensamento, assim que aceito, passa a agir na mente das pessoas bagunçando totalmente o senso-estético, que passa a aceitar como obra-prima um desenhinho infantil de pauzinhos e bolinhas, ou uma escada fotografada, ou um monte de quadradinhos azuis, um monte de árvores pintadas de rosa e etc., no mesmo momento em que considera as obras de Michelangelo como não tão geniais assim, ou somente adequadas ao seu tempo histórico. Ora, isso não é questão para se tratar assim, numa resposta de comment, porque estou entre a minoria que pensa desse modo, e posso ser atacado com essas idéias auto-destrutivas de todos os lados, e aí terei de me dedicar a elas, o que não quero fazer, pelo menos agora, seguindo o conselho de Aristóteles de não discutir com esse tipo de pessoas, e um outro conselho dele mesmo, que diz que devemos partir do mais certo e conhecido e ir progressivamente ao menos certo, portanto prefiro lidar, por ora, com o que é mais certo, e depois, quando eu tiver o amadurecimento para agüentar essas loucuras, e tempo sobrando, eu o faço. Pra quê ficar jogando tempo no lixo pensando, — Existe ou não a porra da Verdade? Eu existo ou não? Minha avó é mesmo minha avó ou é um ET disfarçado? –, prefiro lidar com as certezas experienciais que tenho, naquela confiança grega no conhecimento, a fé no saber, a que permite que eu saiba que estou digitando esta porcaria deste texto, num treco todo rebelde e complicado chamado computador, e que você me lerá assim que acessar este link, por outro treco desses, e não por um avestruz, por mais que algum matusquela pense que isso seja possível, pois esta é sua verdade. Também sei que essas letras ordenadas dessa maneira representam com limitada fidelidade o que penso, e que por isso eu não posso manifestar exatamente o que penso, coisa a que posso me capacitar cada vez mais. Sei que talvez não entenda exatamente o conteúdo já limitado do que está expresso, por faltar-me clareza ou faltar-lhe referências mais precisas tanto de dados objetivos, quanto de subjetivos e intersubjetivos, mas isso não impedirá que conversemos muito mais sobre este tema depois e que nos entendamos melhor um com o outro. Isso tudo é verdade para mim, até o ponto d’eu desenvolver mais minha inteligência e perceber mais minudências do que percebo hoje. E se me mostrarem o contrário disso tudo, admitirei que acreditava numa mentira. Simples assim! Posso ser turrão e teimoso, mas minha vontade de saber sempre vence, mesmo que demore, eu reconheço que acreditava em bobagens. Quem pensa que a Verdade é relativa a cada um, age como se soubesse desta verdade, verdade inobjetável, e que tudo o que eu estou dizendo pode ser traduzido por esta verdade como intolerância de alguém que pensa de um jeito e quer impor aos outros, sendo que, na verdade, eu estou disposto a admitir meu erro, e este outro tipo de pessoas está disposto a esquecer as idéias enunciadas e querer me fazer mais “tolerante”, menos sério, mais brincalhão, ou seja, entender que eu tenho minhas crenças, eles a deles, e cada qual a sua. Crenças… Acham que me contento com crenças vendo lições tão eloqüentes da vida de que há conhecimento certo, e mera opinião, preconceito, idéias mal formadas por não se ter detido com mais cuidado em seus pormenores. Poderia prolongar muito nossa conversa, mas já é suficiente. Um dia, não próximo, vou me deter sobre este tema e, talvez escreva bem demoradamente. Agora, só posso lidar com reflexões básicas… Quando estudei Górgias pensei sobre isso. Quando tive de estudar Nietzsche, sofria por não entender como isso tudo era levado a sério! Mas, isso não é tão importante pra mim agora, visto que considero meus argumentos óbvios demais e estou seguro de que estou calcado na minha experiência pessoal, melhor do que qualquer pirueta imaginativa. Não é assim? Se não acha, continuamos depois! (Ih… Fiquei só nas suas primeiras frases!!!)
Abração!