Abril 2005


 

Aristóteles, em sua obra Topica, diz que não se deve discutir com certo tipo de pessoas. A dialética não funcionaria sem que os pólos da discussão fossem esclarecidos das suas regras. Esses pólos podem ser mestres (professores) e discípulos (alunos), os que tomam parte em disputas e discussões intelectuais, e os que realizam investigações científicas. São imprescindíveis aos que perseguem a verdade regras para o funcionamento de um diálogo que pretende terminar com um número maior de certezas do que havia antes de começar. Diferentemente da lógica, ou analítica, na dialética não se parte de premissas consideradas verdadeiras, mas de premissas prováveis e verossímeis, confrontando-as no intento de descobrir algo novo ou atingir um grau mais alto na escalaridade das certezas. Segundo o estagirita, o debate deve caminhar dentro dos limites da lealdade intelectual.

Na minha experiência pessoal, embora eu ainda não domine todas as regras da dialética, percebi com clareza um dos tipos que devem ser evitados nas discussões. Aconselho que jamais se discuta com os que relativizam a verdade ou dizem que ela não existe. Eles agem e falam como se tivessem o conhecimento da Verdade, não se contendo diante de diferenças, diferenças estas que tanto defendem em seus discursos. Este espetáculo de contradições é um show de horrores para o funcionamento da dialética.

 

Não consigo me concentrar em tarefas que existem somente em virtude de necessidade e dever sem haver entusiasmo. Eu sou capaz de realizá-las, pelo menos nas de sempre, mas há uma rebeldia que me leva a fazer aquilo que, embora não seja necessário, é estimulante, algo para o que eu tenho energias de sobra para realizar.

Estou felicíssimo por ter conseguido as Obras Completas de Shakespeare em inglês, mas como todo monoglota que se mete a ler a língua inglesa por ter familiaridade, sofro, demoro, e brigo muito para decifrar pequenas frases. – Imagina esse tonto lendo o inglês de Shakespeare – pensa o leitor espertinho. Pois é difícil mesmo, mas é uma tarefa prazenteira, diferente de estudar Direito Civil. Eu preciso estudar Direito Civil! Tenho uma prova importante, lotada de matéria, e minha concentração se rebela, me força a ler “Hamlet”, “Othelo”, ou “The merchant of Venice”, trechos, apenas trechos… Consulto dicionários de língua inglesa (inglês-inglês) com prazer, e fico intrigado com expressões que desconheço. Como meus conhecimentos de inglês são limitados! – costumo pensar há alguns anos. Eu sempre neguei o esforço para aprender o tal idioma. Não tomava este aprendizado como importante. Agora sofro, não podendo ouvir Hamlet monologar ou Iago burlar na língua original! E o Direito Civil… Bah! Ó vontade rebelde que não obedece ao Querer mais ponderado!

Até que aprendo rapidamente. Juscivilismo não é matéria que meu interesse se esquive, mas não atrai a minha vontade a ponto de vencer a tentação das obras do literato inglês. Alguns colegas já me perguntaram se eu não deveria ter ido cursar Letras. Viam meus olhos brilhando quando eu cursava Filosofia, todo dia com uma novidade, nem que fosse o ódio a Nietzsche e sua turminha… Mas, agora só leio Machado de Assis, Shakespeare, Goethe e… Aristóteles. Será que não é possível formar em Direito lendo literatura? Acho que sim. E não é birra besta, e nem falta de vocação ao Direito, penso eu! O livro “Teoria Tridimensional do Direito” de Miguel Reale é ótimo, e estou adorando lê-lo! Mas, as matérias da facul…. Não dá! São chatas, sem cor. Vou me empenhar no estudo dos textos doutrinais que me entusiasmarem como os do Reale. Isso pode atenuar os efeitos desta rebeldia natural contra o que é necessário fazer e estudar. Além do quê, já está mais do que na hora de amadurecer, vencendo essa dificuldade que vem da mais tenra infância. Preciso criar estímulos para lidar com as tarefas habituais, necessárias! E reservar um tempo livre para as leituras e afazeres alheios ao dever. Meu senso de dever que parece ser tão aguçado a alguns colegas mostra-se cambaleante nesta reflexão. O caso é que o Dever fala mais alto que o dever imediato, e como quero trabalhar com a escrita, preciso deixar de ser ignorante em temas literários e aprender com os clássicos das letras. Viram como não é fraqueza no senso de Dever, mas sim, no de dever? Isso precisa ser superado e devidamente consertado. A rebeldia não pode ser um monte de berros de pensamentos aleatórios e desconexos com meus propósitos! Não posso permitir essa balbúrdia mental! Mesmo se for uma angústia frente ao que pretendo fazer em longo prazo, tal paixão não pode impedir que meus outros projetos caminhem, sob pena de afundar tudo! Bom, já escrevi demais, torrei a paciência do leitor e não estudei Direito Civil. Volto aos estudos necessários e como costuma escrever um grande amigo: obrigado por me ler, e até logo!

Conheci há pouco, a Faculdade de Direito da USP no Largo São Francisco. Arquitetura inspiradora, biblioteca convidativa! Pena que estava em reforma. Não pude contemplá-la como queria! E.. Gostei do evento!

 

Há questões que fazem parte da minha vida porque foram causadas por profundas inquietações, e outras que entram na minha existência por acaso, vêm por necessidade ou por circunstâncias que as exigem. Entendo como minhas questões as que verdadeiramente me inquietam, as que coloco no topo das preocupações de magna importância, e às outras entendo como questões alheias ao meu espírito, secundárias na ordem de relevância. As do segundo caso são, no entanto, extremamente freqüentes, visto que surgem no caminho para o sucesso profissional, nas questões práticas do dia-a-dia e no convívio. O que eu quero mesmo saber é por que diabos eu estou aqui, neste “bendito” lugar específico (cidade, estado, país), com estas pessoas (pais, parentes, amigos, colegas e outros…), desta forma (física, psíquica e espiritual), com estas potencialidades, nesse planeta, nesse sistema solar, universo…

Não é tão fácil perceber que toda e qualquer ação, escolha, arte, projeto, tem por pano de fundo a resposta a algumas perguntas fundamentais. Acho que quase todos conhecem essas perguntas, por ouvir dizer, por já as conhecerem como companheiras inseparáveis, ou por curiosidade. São: “De onde eu vim?”, “Para onde vou?” e “Para quê eu vim?”. Daí, surgem as questões derivadas, como as teológicas, teleológicas, materialistas, existencialistas, humanistas etc. Dos fundamentos destas questões derivadas surgem as ciências. A partir desses fundamentos (princípios) as ciências crescem e se ramificam. Antes da ramificação, tudo é Filosofia. Esta (a Filosofia) é a disciplina que está no cerne de minhas preocupações. E por estar fortemente convencido de que há Deus, também tenho imenso interesse em Religião e pesquisas de caráter espiritual.

E não quero nem saber dos metidos a agnósticos e os próprios, que vêm com historinhas de que não podemos conhecer as respostas a estas indagações. Eles que se contentem com sua desventura e fraqueza. Não dá (para eles) porque são preguiçosos ou por causa dos exemplos de seus insucessos nesta empreitada, o que não implica o insucesso de todos os outros.

O que eu quero é a Verdade. Isso exige uma energia inefável! Eu caio diversas vezes em desespero. A maioria da humanidade próxima à minha esfera de ação não me compreende e me rotula de algo pejorativo para facilitar sua compreensão, pois têm dificuldade em me adequar a um grupo fixo. Mas, tudo isso quando não estou. Na minha frente vejo um bando de “bundas-moles” com suas “bolas baixas” por que vêem coragem na minha fisionomia. Sou (quase) completamente solitário em minhas ações e aspirações, porém não me abalo. Isso não significa que sou isolado! Significa que não preciso de um grupo enorme reiterando minhas convicções. Nem de consenso algum. Sozinho eu sigo em frente, pois são mais valiosas as poucas verdades que adquiri com meu esforço do que o consenso dos imbecis que se juntam para se imbecilizarem uns aos outros (como diz Olavo de Carvalho). Uns poucos (bem poucos) são sim companheiros nesta caminhada solitária e árdua, a mais penosa de todas, mas também a mais digna, proba e honrada. E a nossa comunidade é a comunidade espiritual, como disse Hegel, pois nossos amigos e colegas de conversa são os que afinam com nossos desassossegos mais profundos, independendo da época em que viveram, ad exemplus, Aristóteles, Buda, Confúcio, Dante, etc, ao invés duma comunidade de idiotas completos que se vêem como “os que sabem viver bem e aproveitar a vida”. No final das contas, eles aproveitam a vida do mesmo modo que os insetos, as rãs, os morcegos e as galinhas, com a diferença de que fazem isso de modo mais esmerado, elegante. E essa vulgaridade torna-se a causa final das vidinhas imprestáveis destes seres, e suas profissões tornam-se os meios para tais conquistas. Nada mais!

Ah… Algo mais sim.

A meu ver, junto a Mário Ferreira dos Santos, fugir desse difícil caminho é covardia.