Para Wilber, uma das principais características da filosofia contemporânea é a de se revoltar contra os desastres da planura (ponto de vista do empirismo restrito) da modernidade. Os primeiros movimentos dessa índole foram o Idealismo e o Romantismo. Mas eles não respiraram por muito tempo, pois a realidade dos domínios interiores era completamente negada. Estes movimentos foram “incapazes de desafiar seriamente o monismo científico e o holismo plano” (WILBER, p 101, 2001).

Os que quiseram demolir o Cosmos científico partiram de dentro, não exigindo formas mais elevadas de conhecimento. Começaram a “abalar a ciência em suas próprias fundações” (WILBER, p 101, 2001). Segundo Wilber, assim agiram Nietzsche, Heidegger, Foucalt, Lacan, Deleuze, Derrida, Lyotard, Bataille e Wittgenstein. Uma das palavras-chave deste movimento filosófico é interpretação. Ela se tornou centro da epistemologia e da ontologia, ou melhor, tanto do saber quanto do ser. A interpretação não é apenas crucial, mas é um aspecto da própria estrutura do Cosmo, “… é uma característica intrínseca do tecido do universo” (WILBER, 2001, p. 102). Isso se explica pelo desastre da modernidade, que consiste na redução de todo conhecimento introspectivo e interpretativo a um plano exterior, sensorial. “O pós-modernismo tentou introduzir novamente a interpretação na própria estrutura e tecido do universo. Foi mais um esforço para escapar à planura e ressuscitar os interiores eviscerados e as modalidades de conhecimento interpretativas” (WILBER p 200, 2001) Porém há o pós-modernismo extremo que afirma não existir nada que não seja interpretação, e sendo assim, podemos dispensar totalmente o componente objetivo da verdade. Um dos aspectos extremados do pós-modernismo é o referente a algumas teorias da linguagem. A maneira de lidar com a linguagem na modernidade é meramente representacional, e com o advento das reflexões contemporâneas ela passou a ser considerada tão importante que o sujeito individual foi erradicado de seus meandros. Para Wilber essas são tentativas de reduzir os sujeitos a meras estruturas intersubjetivas. “A ‘linguagem’ substituiu os ‘seres humanos’ como agentes da história. Não é o ‘eu’, o sujeito, quem está falando agora; é apenas a linguagem impessoal e a estrutura lingüística que fala por seu intermédio.” Wilber tenta levar este pensamento até suas últimas conseqüências dizendo:

Portanto, eu, Ken Wilber, não estou escrevendo estas palavras, nem sou responsável por elas de nenhuma forma primária; na verdade é a linguagem que está fazendo todo o trabalho (embora isso não impeça que ‘eu’, Roland Barthes, ou ‘eu’ Michel Foucalt, recebamos os cheques relativos aos direitos autorais, que supostamente não existem). (WILBER, p. 104, 2001).

A Filosofia Neo-Perene de Wilber pretende enquadrar as verdades parciais de todas essas correntes, separando os enganos, formando um conjunto das verdades imperecíveis. No meu ponto de vista, esta é a forma mais correta de encontrar o status quaestionis, de onde o filósofo deve partir para poder fazer reflexões pertinentes. Fora daí, é repetição de acertos e de erros, estes muitas vezes já corrigidos.

Fonte:
Wilber, Ken. Psicologia Integral. São Paulo: Pensamento-Cultrix. 2002. 311p.
________. A União da alma e dos sentidos. São Paulo: Cultrix. 2001.167p.