Breve estudo psicológico, moral e filosófico do filme “Olga” 

 

Há cinco dias, eu assisti ao filme brasileiro “Olga”. Ele conta a história da alemã chamada Olga Benário, militante comunista desde os quinze anos, colaboradora de um evento que libertou prisioneiros de uma prisão alemã e guerreira treinada na Rússia para a implantação violenta da Revolução Comunista num país longínquo, a saber, o Brasil. Para maiores informações, aconselho os seguintes links (ideologicamente nada confiáveis, mas servem de sintoma do que adiante vou expor):

http://pt.wikipedia.org/wiki/Olga_Ben%C3%A1rio, http://www.culturabrasil.org/olga.htm e
http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,6993,EPT794517-1655,00.html
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Veio ao Brasil junto a Luís Carlos Prestes, que teria se mostrado aos comunistas russos uma grande esperança revolucionária, algo como um possível recuperador das recéns derrotas comunistas ocorridas na Europa. Segundo o filme, Prestes estava sob a defesa de Olga, e juntos vieram auxiliar os comunistas revolucionários a acabarem com o governo Vargas, com os intentos generosíssimos de perseguir o bem, o justo e o melhor.

Não falarei muito sobre os aspectos procedimentais e cinematográficos do filme, pois no momento estes não me interessam. Neste sentido, o que mais me incomodou, concordando com o Pereira e com outros amigos, foi o gerenciamento das línguas. O caráter televisivo e a trilha sonora não me incomodaram.

O filme é altamente retórico, cheio de emotivismo barato. Não se propõe a levantar reflexões sobre possíveis saídas do “buraco” em que o Brasil se encontra, embora pretenda apresentar algumas causas do nosso atual estado de coisas. O drama humano, um tanto “novelístico”, apareceu como arma para colocar o público junto aos comunistas, mesmo sem saberem o que isso significa, feito típico de impostores e enganadores. Nada de especificamente comunista foi mostrado e/ou colocado como relevante, mesmo sendo o roteiro inteirinho feito em torno das estratégias internacionais dos comunistas. Somente o superficial que corresponde aos dizeres, gírias, bandeiras, gritarias e a costumeira tentativa de monopólio da bondade e da solidariedade. Tudo o que foi colocado ao lado de Olga, pode ser colocado ao lado de inimigos do comunismo sem prejuízos. São virtudes, coisas misteriosas, elementos imaginativos, emoções frívolas e sentimentos superiores desviados de sua pureza originária.

As virtudes aparecem na “coragem”, eu diria temeridade, ou seja, não há virtude, e na abnegação da vida comum para a dedicação a uma reforma que trará benefícios coletivos (mas isso pensando segundo a mente dela, pois o caminho de seus esforços não pareceram corresponder às suas aparentes intenções). O mistério aparece nos gestos e premonições da mãe do Prestes, e no amor aparentemente predestinado dos protagonistas. Os sentimentos superiores aparecem no amor conjugal e filial, na solidariedade e na caridade. Estes elementos são tão delicados que espero que o leitor tenha muita cautela ao raciocionar sobre o que lê para não se equivocar no que pensa que eu penso.

Admitindo e reiterando o anteriormente exposto, há possibilidade de colocar com facilidade um nazista, uma fascista, um ditador, um reacionário, ou um religioso fervoroso, nas mesmíssimas condições heróicas da protagonista, independente das idéias que cada qual siga e defenda. Deu pra entender? Tudo o que pontuei como pontos altos da psicologia da personagem, não são exclusividades do comunismo, pelo contrário, parecem não corresponder uma coisa a outra. As idéias que fundamentam as intenções é que vão reger e direcionar as atitudes, e conseqüentemente são as que vão, ou não, trazer algum bem a uma parcela maior da humanidade. As idéias é que devem ser colocadas em primeiro plano, e não um romance ideal, a coragem de viajar pra matar inimigos “malvados” e ajudar os bonzinhos a vencer. Isso é assim, querendo ou não, mesmo que ao dizer e pensar isso seja necessário discutir com amigos e colegas os conteúdos de suas idéias regentes, e, no caso de filmes e revistas e óperas, o que pode acontecer é a perda de público. Todo mundo é educado direitinho para aceitar essas bobagens, mas os mais dóceis às realidades da vida terão de colocar em suspenso suas convicções e critérios sempre que estes não pareçam dignos e reais. Vamos analisar melhor.

Será que o comunismo, na forma com que Olga o entendia, teria feito do Brasil um lugar melhor para viver, com seres humanos melhores, e com uma perspectiva de vida melhor (seja lá o que isso signifique)? Onde está o bem, o justo e o melhor no pensamento voltado inteiramente às condições materiais da vida, na crença em que todo o desenrolar da história e das vidas humanas se dá com base numa luta de interesses de classe, ignorando com isso, os sentimentos que tanto mexeram com a vida deles próprios? (Não discutirei aqui se a compaixão é um sentimento imaterial ou uma sensação causada pela dopamina. Embora eu ache essa discussão absurda, eu a considero importante nos tempos atuais e a trabalharei em escritos posteriores.) Onde está o bem, oh raios, de treinar táticas e estratégia militar para matar “inimigos” num outro país, sem exame acurado das idéias? Como uma garota que desde os quinze anos é metida em arruaças, protestos e atos criminosos pode saber quem matar e quais os destinos da humanidade? Ela seria uma nova iluminada, algo como uma Buda de metralhadora? Ou será que tem é cabeça de bunda?

Bom, fujo das aporias e volto ao bem, justo e melhor. Na Grécia clássica, os sábios, identificados com as forças políticas mais conscientes, ao contrário das crenças de hoje em dia, tomariam uma atitude básica antes de ensinarem, se comprometerem e matarem em nome deste conceitos. Eles perguntariam: 1. O que é o bem? 2. O que é o justo? 3. O que é o melhor?

Olga, pelo contrário, deve ter achado bobo perguntar (se é que pensou em perguntar), e por isso, já se moveu com as respostas que adquiriu sabe lá como, que, grosso modo, são: 1. acabar com os maus (ricos que querem manter a ordem social que existe somente para sustentar a sua riqueza) 2. todos terem as mesmas coisas em igual quantidade (embora todos sejam diferentes, e precisem de coisas diferentes em quantidades diferentes) 3. o regime comunista (que não trouxe e nem garantiu a felicidade e bem-estar de ninguém em seus ensaios, tendo sido responsável por muitas e muitas mais mortes do que o nazismo, fato que posso documentar).

O senso-comum já diz que de bem-intencionados o inferno está cheio, e eu penso que seja bem por aí. Uma parte muito grande dos malefícios da humanidade vem por causa destes seres cheios de boas-intenções que, no entanto, não tem conhecimento nenhum nenhum nenhum.

Sobre a historicidade do filme, há algo muito gritante, que é a idealização dos personagens principais. Prestes e sua família, os “camaradas” do partido, e Olga pareceram tremendamente sublimados em suas relações, com seu companheirismo, com seu afeto unitivo até os últimos e mais duros momentos… Isso favorece o culto a seres que nunca existiram. Muito fácil se torna esse labor quando o público já está há muito tempo acostumado a crer nesse tipo de conto de fadas, e a usar indevidamente a imaginação, criando vínculos afetivos com símbolos assustadoramente deformados dos simbolizados. Isso auxilia consideravelmente a diminuição da acuidade mental dos que assistem com suscetibilidade a obra cinematográfica. Os efeitos desse emburrecimento são o desenvolvimento e cultivo de emoções aparantemente nobres, inspiradas em quimeras, por relações de imagens e em símbolos deformados. E a deformação segue com impressões e sentimentos que vão atuar no direcionamento das ações e no desenvolvimento de outros sentimentos e impressões, afins a estas fabulações. Entendo que é por esta exata causa que ouvi pessoas saindo do filme dizendo ter vontade de seguir caminhos parecidos… Meninas, até adolescentes recém saídas da infância querendo adotar ideais revolucionários… Como bem disse um amigo (Julio Lemos), que bom que estas pessoas não têm as condições, “virtudes”, ou forças necessárias para levar a cabo tal engano, já que não é fácil dedicar a vida a algo que não seja satisfazer os próprios desejos, efêmeros e imediatos, de tão desenfreados que são, nem é fácil ter qualquer dedicação a algo direcionado, mesmo que erroneamente, ao bem dos semelhantes. Mas tem gente que consegue sim, e aí mora o perigo. Quando estas proficiências são agregadas à vida, misturadas com sentimentos inferiores (vinculação dos objetivos com honrarias, vanglória, e reconhecimentos de heroísmo) e à imaginação mal empregada (para suprir a falta de conhecimentos necessários para realizar grandes obras), os efeitos serão, na certa, estragos imensuráveis.

A não discussão das idéias, ou seja, a falta de revisão dos conceitos admitidos como certos, já que nem o filme, nem seus críticos, nem a imprensa, nem as intituições de ensino as discutem, deve-se ao fato de que a inteligência dos brasileiros em geral, desde o “roteirista”, o diretor, os críticos e tantos quantos participaram e participam da história deste filme, esteja profundamente afetada. A meu ver, não há nada mais grave do que abolir o ato de pensar sobre os problemas, e sobre o mais correto a fazer para saná-los, sob pena das vítimas atingirem uma postura de possuidores da plenitude do saber, colocando-se num patamar de conhecedores do Bem e do Mal, só restando então a tarefa prática de extirpar o mal do mundo, combatendo com armas aqueles que com ele se identificam. Mas… Será que devemos, em primeiro lugar, combater o erro ou os que erram? Se o bem é combater os que erram, acertadamente Olga foi morta. Mas esta não é a postura que defendo, ao menos, nos primeiros e nos principais passos.

Sem dúvida, eu não gostei de ver o drama humano de Olga, pois eu não simpatizo com a idéia de seres humanos sofrendo. Como eu reafirmei, o drama humano me aborreceu, e não a falha do planejamento da revolução, ou o drama revolucionário. A revolucionária que treinou para a guerra, com a finalidade de matar aqueles que se colocam em seu caminho, e de destruir os que não concordam com os ideais socialistas, inevitavelmente acabaria matando muito ou sendo morta. Olga levaria muitos à morte da mesma maneira que morreu nas mãos dos nazistas, que, com certeza, estavam em busca do bem, do justo e do melhor tanto quanto ela, já que, para eles, os judeus eram uma “raça inferior” que, dentre outras tantas coisas, dominava os bancos, impedindo o crescimento dos germânicos de “raça pura”.

“Olga” é um filme de singular importância para a comprovação da crise da falta de referências positivas para o povo brasiliano. Uma judia alemã, desprovida das indispensáveis virtudes intelectivas para um labor humanitário, e das qualidades mais necessárias aos que se comprometem com uma ação de alta envergadura, somente se torna objeto de adoração devota por um povo arrastadiço, carente de orientações claras e precisas. Não penso que o problema seja a falta de seres de valor, mas sim a falta do reconhecimento dos reais seres de valor. Esta é uma situação arquetípica, já que em todos os tempos, somente aqueles que possuem e/ou que adquiriram com muito esforço algum tipo de virtude, reconhecem aquele que as têm de sobra. Estou cada vez mais consciente da escassez desse tipo de ser humano.

Uma estrangeira assassina feita heroína mostra a ausência da honra ao mérito dos brasileiros valorosos. Faço um apelo à mais pura e nobre brasilidade, que tem em si o fundamento no reconhecimento de nossos heróis de fato. O patamar mais alto deve ser ocupado por José Bonifácio de Andrada e Silva. Depois, é preciso consideração aos que nos ensinaram com suas lições da vida, alguns dos grandes mestres da humanidade (estes sim, estrangeiros, porém de importância apólida). Eles sim têm muito que nos ensinar para nos privar de sofrer os caminhos tortuosos da ignorância. São os heróis que nos ajudaram a ser quem somos, no melhor de nossa constituição bio-psico-espiritual. Será que isso é muito difícil? Eu trabalho na criação do amor digno, real e nobre à pátria em mim mesmo; sei que dá pra fazer. Por isso, o sentimento de brasilidade deve existir de outra forma, com um maior grau de inteligência e sentimentos superiores, e um menor grau de emoções triviais e inspirações quiméricas tão nocivas à mente quanto o gás venenoso é nocivo ao corpo.